Há inquéritos epidemiológicos ao fim-de-semana, diz ARS. Medina pede números

Autoridade regional de saúde desmente presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Presidente da Câmara de Lisboa afirma ao PÚBLICO que é notório que há quebras abruptas no número de inquéritos epidemiológicos ao fim-de-semana e pede à ARS que divulgue o número de inquéritos realizados por dia.

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A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) desmente o presidente da Câmara Municipal de Lisboa e garante que são feitos inquéritos epidemiológicos aos fins-de-semana. “Não acho normal haver interrupção da realização de inquéritos epidemiológicos ao fim-de-semana. O vírus não descansa”, disse Fernando Medina, numa entrevista à RTP. O autarca já tinha deixado durante a semana críticas à organização que está a ser feita pela saúde no combate à pandemia, que centra esforços em cinco concelhos da área metropolitana de Lisboa.

Questionada pelo PÚBLICO, sobre qual o motivo para nos fins-de-semana não se realizarem inquéritos epidemiológicos e se esta era uma situação em toda a Grande Lisboa, a ARSLVT foi taxativa: “Tal não corresponde à verdade já que as equipas de SP [saúde pública] fizeram IE [inquéritos epidemiológicos] aos fins-de-semana, desde o início.”

A ministra Marta Temido foi questionada na conferência de imprensa sobre as palavras de Fernando Medina. “O que é mais relevante para dizer é que estamos profundamente empenhados a trabalhar em identificar casos, contactos e cortar cadeias de transmissão. Os demais aspectos desfocam-nos do central. Continuamos a trabalhar, os números ainda não são o que desejamos”, afirmou, referindo que os “números de Lisboa têm dado muita luta”.

Fernando Medina reagiu ao início da noite, numa nota enviada ao PÚBLICO, na qual afirma que “é público e notório que há quebras evidentes e abruptas no número de inquéritos epidemiológicos realizados durante os fins-de-semana”. “A diminuição ou paragem dos inquéritos ao fim-de-semana, conforme o concelho, tem sido confirmada por vários especialistas e profissionais de saúde no terreno”, afirma, prosseguindo: “A declaração da ARS não corresponde à verdade que se verifica no terreno, com a existência durante um período longo de centenas de inquéritos em atraso durante vários dias e a perda de controlo das cadeias de transmissão – como aliás já foi reconhecido pelo Governo”.

“Assim sendo, e até pelo dever de transparência que compete às instituições públicas, exige-se à ARS de Lisboa e Vale do Tejo que divulgue o número de inquéritos realizados desde o início da pandemia, por dia e por concelho, permitindo que cada um tire as suas próprias conclusões”, remata a nota.

O relatório da Direcção-Geral da Saúde (DGS) desta sexta-feira registava mais 11 mortes por covid-19, somando-se um total de 1598 desde o início do surto. Há mais 374 pessoas infectadas, uma taxa de crescimento de 0,87% que eleva para 43.156 o número total de casos identificados em Portugal. Dos novos casos, 300 (80,2%) são na região de Lisboa e Vale do Tejo. Há 495 (menos 15 que no dia anterior) pessoas internadas e 72 (menos 5 que no dia anterior) estão em Unidades de Cuidados Intensivos. 

Recursos humanos

A falta de recursos humanos em saúde pública já foi assumida pelo Ministério da Saúde. Na quarta-feira, na comissão parlamentar de saúde, a ministra Marta Temido adiantou que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) “tem 360 médicos saúde pública, com uma média etária de 59 anos”, a que se juntam cerca de 300 enfermeiros e 500 técnicos superiores. Nas últimas semanas, as equipas de saúde pública dos concelhos que mais casos positivos têm registado nas últimas semanas começaram a ser reforçadas.

Primeiro com voluntários da academia e mais recentemente com 80 médicos internos do ano comum e de várias especialidades, que “vão reforçar escalas das equipas já existentes, incluindo fins-de-semana”. “O reforço das equipas em LVT [Lisboa e Vale do Tejo] visa fazer IE nas primeiras 24 horas após a notificação do caso. E isso está a ser realizado”, assegurou a ARS, adiantando que estes profissionais começaram a trabalhar “de forma faseada, desde há cerca de 15 dias”. Há ainda mais 40 médicos em formação. Quanto às equipas multidisciplinares constituídas por profissionais de saúde, da Segurança Social, da Protecção Civil Municipal e das forças de segurança, em três dias realizaram acções de rua e “visitaram 250 famílias, bem como 579 indivíduos”, avançou a ARSLVT, indicando que, no total, foram contactadas 1147 pessoas.

Ao PÚBLICO, o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, afirma que é “importante que os recursos humanos cheguem rapidamente” e que segundo relatos que recebe de colegas, os recursos “continuam a ser insuficientes”. Questionado sobre as declarações de Fernando Medina, os relatos que tem é que “pelo menos em alguns concelhos a capacidade de realização de inquéritos epidemiológicos é mais reduzida [nos fins-de-semana] que nos dias de semana”.

“Os recursos humanos são precisos agora. Espero no inverno não termos o mesmo problema”, deseja Ricardo Mexia, que considera que dar formação aos profissionais já devia estar no horizonte a médio prazo. Também lamenta o recurso a voluntários, situação que não vê acontecer noutras áreas. “Não vejo porque seremos sempre um recurso menos valorizado.” Quantos aos 29 recém-especialistas que Marta Temido disse que seriam contratos no próximo mês, salienta que são profissionais que já estão no SNS mas como internos, o que significa que “em termos de força de trabalho, não haverá grande alteração de recursos humanos”.

Rapidez para travar casos

“O vírus todos os dias trabalha, a fazer o que melhor sabe: multiplica-se e morre. Qualquer atraso na identificação de uma pessoa infectada traduz-se na maior possibilidade de infecção de outra, mesmo que seja assintomática. Se estamos a querer quebrar cadeias e a diminuir os números, não pode haver folgas nem fins-de-semana. Temos de ter uma estrutura montada capaz de fazer testes e inquéritos todos os dias e de identificar os contactos próximos dos casos positivos. Por cada minuto que nos atrasamos, o vírus multiplica-se várias vezes”, afirma António Diniz, que faz parte da task force da DGS.

O médico salienta que é fundamental ter velocidade na resposta. “Uma parte importante é saber se estamos a fazer os testes às pessoas certas e com que rapidez. Quanto tempo demora uma pessoa infectada a ser testada? Eu acho que deve ser no mesmo dia. E depois quanto tempo demora a ter o resultado? Também deve ser no mesmo dia. E no mesmo dia devem ser testados os contactos próximos, mesmo os assintomáticos. Sabemos que há uma percentagem de pessoas assintomáticas e que podem transmitir a doença. É mais provável que estejam nos contactos próximos de pessoas infectadas”, aponta.

Foi pegando em algumas destas questões lançadas por António Diniz e nas chamadas de atenção relacionadas com o decréscimo de notificações feitas aos fins-de-semana – no microsite da DGS para a covid, é possível ver que o número de amostras processadas é sempre inferior nos domingos – que o PÚBLICO questionou também a ARSLVT. A mesma esclarece que “há pequenos laboratórios privados e vários laboratórios das universidades que não realizam testes aos fins-de-semana e alguns também às segundas-feiras”, mas assegura que esse facto “não atrasa a comunicação de casos positivos”.

“Apesar de haver laboratórios que estão fechados aos fins-de-semana, há uma tendência clara de diminuição da colheita de amostras neste período, o que também acompanha o usual movimento de doentes: aos fins-de-semana, os laboratórios a funcionar recebem menos amostras, dado que os utentes recorrem menos aos serviços”, acrescenta. Já sobre quanto tempo demora a realização do teste após a identificação de um caso suspeito e a pessoa a ser informada do resultado, afirma que “o mais usual, é este processo decorrer entre oito e 12 horas” e que o início do inquérito epidemiológico dá-se “nas 24 horas decorrentes”.

Sobre a testagem, “de acordo com as orientações da DGS e da OMS, os contactos directos são testados se tiverem sintomas ou se a avaliação de risco efectuada pelo delegado de saúde assim o determinar”, explica, referindo que em contexto de surto os assintomáticos também são testados. “Todos os contactos directos estão a ser isolados”, reforça.

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