Crianças que deixam comida no prato e comem devagar têm melhor saúde cardiometabólica

O estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto demonstra uma relação entre a vontade de comer e a saúde cardiometabólica. No entanto, a investigadora Sarah Warkentin salienta que a massa corporal tem uma maior influência do que tendências alimentares.

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Para a investigadora, a saúde cardiometabólica “depende muito mais do peso do que dos comportamentos alimentares” PROVIDENCE DOUCET/ UNSPLASH

As crianças que deixam comida no prato e comem devagar têm melhor saúde cardiometabólica, revela um estudo que envolveu três mil crianças, feito pelo Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). Sarah Warkentin, primeira autora do estudo, publicado na revista Nutrition, Metabolism & Cardiovascular Diseases, explica que o propósito era avaliar o quanto os comportamentos alimentares das crianças aos 7 anos influenciavam o risco cardiometabólico aos 10 anos, isto é, o desenvolvimento de doenças como a obesidade, diabetes e hipertensão arterial.

Para responder a essa questão, os investigadores recorreram a dados de quase 3000 crianças que integram a coorte Geração XXI, um estudo longitudinal desenvolvido pelo ISPUP que, desde 2005, acompanha 8600 pessoas que nasceram nas maternidades públicas da Área Metropolitana do Porto. Através de questionários respondidos pelos pais, os investigadores avaliaram os comportamentos alimentares das crianças aos 7 anos. Quando os participantes fizeram 10 anos, foram avaliadas amostras de sangue para os investigadores poderem recolher dados sobre os triglicerídeos, o HDL-colestrol, resistência à insulina e a pressão arterial. “Estes são factores de risco já muito conhecidos na literatura que aumentam a probabilidade destas crianças terem no futuro doenças cardiovasculares como enfarte agudo do miocárdio, diabetes e outras doenças já descritas”, refere a investigadora.

Segundo Sarah Warkentin, a associação entre os dados recolhidos mostram que as crianças que manifestam “uma melhor resposta à saciedade”, isto é, deixam mais comida no prato ou comem mais devagar, apresentam “melhor saúde cardiometabólica”. Por sua vez, as crianças que manifestam um “maior prazer em comer” e pedem mais comida, apresentam “pior saúde cardiometabólica”.

“É importante referir que estas associações dependem muito do peso da criança, isto porque, a partir do momento em que incluíamos o peso da criança nos modelos estatísticos, essas associações perdiam-se”, salvaguarda a investigadora, acrescentando que a saúde cardiometabólica “depende muito mais do peso do que dos comportamentos alimentares”. A investigadora salienta que, apesar de o peso ser um importante preditor da saúde cardiometabólica, o objectivo da equipa era, efectivamente, “avaliar outros e diferentes parâmetros”.

“A compreensão da influência dos comportamentos alimentares na saúde cardiometabólica das crianças é fundamental para que se possa intervir precocemente e moldar melhor a saúde dos mais novos”, acrescenta. O próximo passo da equipa de investigadores do ISPUP é “perceber melhor se os comportamentos alimentares são explicados pela genética ou uma consequência ambiental”.

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