Escadas de Miragaia: “Isto veio pelo turismo, não pelos moradores”

Projectadas em 2017, as escadas rolantes de Miragaia já estão a funcionar. Para alguns moradores, foi sobretudo uma iniciativa para turista ver, numa crítica à gentrificação. E deixam sugestões.

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Nelson Garrido
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As escadas rolantes entre Miragaia e a cota alta da cidade do Porto já rolam encosta acima. Porém, nas palavras de Hugo Pereira, que habita nas imediações das Escadas do Monte dos Judeus, esta é “uma medida que vem tarde”. Para o morador, as escadas rolantes não passam de fogo-de-vista para turistas pois a população a que preferencialmente se dirigia - os idosos - já rareiam numa zona que se transformou em prol do turismo. Mas há quem agradeça o esforço poupado quando se carregam sacos de compras.

Na manhã desta quinta-feira, dois dias depois de o presidente da Câmara do Porto ter estado ali para inaugurar a obra, o movimento é escasso ou mesmo nenhum. A empreitada, cujos esboços tinham sido divulgados em 2017, chegou mesmo a exigir a retirada de algumas das velhas escadas para, depois de recuperadas, serem repostas. E agora que todos podem finalmente fazer a viagem sem cansaços, Fernanda Helena e Júlio Rodrigues, proprietários do café Casa Mara, em Miragaia, não parecem convencidos dos ganhos.

“Não há muita população idosa aqui, mandaram as pessoas todas para fora para fazerem hostels”, reclama Fernanda Helena, que nos últimos tempos tem visto o seu negócio a decair com a falta de turistas. “Já estou aqui há trinta e tal anos, mas de há três anos para cá, tudo mudou”, conta. “Agora fazem falta os estrangeiros. Este ano, meu Deus, é uma desgraça...” Quanto às escadas, a dona do estabelecimento admite que “vão atrair pessoas com curiosidade”. 

Hugo Pereira tem a mesma opinião. Vive ali há 30 anos, os seus pais há 60. “Na opinião geral, isto veio por causa do turismo, não veio por causa dos moradores”, especifica, relembrando o fenómeno de gentrificação dos últimos anos. “As pessoas não têm capacidades financeiras para ficar, é a situação que se vê”, lamenta, referindo-se a grande parte da população idosa que ali vivia e que foi obrigada a abandonar a sua casa

Ana Luís Davis, que vive a seguir ao primeiro lanço de escadas desde 2008, conta que as escadas lhe são úteis, especialmente para “carregar sacos de compras”. Mas relata que a sua vizinha idosa, de 90 anos, continua a preferir usar as escadas de pedra. “As escadas rolantes não têm funcionado muito bem, estão sempre a avariar, e só funcionam até às nove da noite”, critica. Hugo diz que o plano inicial previa a ligação das escadas às nove da manhã, o que o fez falar com a directora da Escola Básica da Bandeirinha, onde o filho estuda, pedindo-lhe que apelasse à Câmara do Porto para a abertura ser mais cedo. O pedido foi atendido e as escadas começam a funcionar às oito da manhã. 

As escadas rolantes facilitam a subida até à Escola da Bandeirinha, situada no cimo do declive. Mas Fernanda Almeida, conhecida por “Fernandinha” nas redondezas, diagnostica falhas. A primeira, diz, é serem demasiado estreitas: “Uma pessoa mais gorda, uma pessoa com muletas, uma cadeira de rodas ou um carrinho de bebé não consegue passar”, protesta, sem querer recorrer à inovação. “Escadas para quê? Mais vale as de pedra, ao menos essas não avariam”, remata no momento em que se prepara para descer a encosta.

No entanto, as escadas estiveram em testes nas últimas semanas, o que justifica algumas interrupções no seu funcionamento que os moradores detectaram.

“É uma obra bonita”, não deixa de dizer Hugo, reclamando, ainda assim, algumas mudanças. As escadas de pedra, ao lado das rolantes, carecem de corrimão do lado direito de quem desce – uma vez que as escadas rolantes apenas sobem e as crianças da escola têm de usar as escadas convencionais para chegar a Miragaia. No meio da correria desenfreada dos mais novos, não haver corrimão parece-lhe “perigoso”.

Hugo ainda se preocupa mais com o cimo da encosta que vai dar à Rua da Bandeirinha, algo alheio à obra mas para o qual aproveita a oportunidade para chamar a atenção. “Há um patamar grande que é em paralelo roçado e antigo”, explicita. O caminho, sempre a subir, que dá acesso ao Hospital de Santo António, parece-lhe inseguro pelo tipo de pavimento: “A minha mãe, no Inverno, pedia-me para não ir buscar o meu filho porque tinha medo de cair ali”, conta.

Para a mãe de Hugo, mais do que habituada às velhas escadas, a ligação mecanizada não se afigura como uma boa solução. O filho chega mesmo a comentar, em tom de brincadeira, que quem ali vive dura “até aos 80, 90 anos porque tem o exercício de subir as escadas”. Essa população resistente, no entanto, vai sendo cada vez mais escassa, diz Hugo, ao mesmo tempo que se queixa da dificuldade dos mais novos de ali permanecerem também. “É verdade, estas escadas já não são para nós”, lamenta, guiando o olhar até ao cimo da encosta, onde o número de moradores é reduzido e os alojamentos locais proliferam.

Texto editado por Ana Fernandes