Infecções associadas a foco em fábrica de conservas de Caxinas sobem para 15

Para além de sete trabalhadores da empresa, há oito pessoas relacionadas com aquelas - e entre elas quatro crianças - infectadas. Autoridades consideram que empresa tem condições para continuar a operar.

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Fábrica de conservas de Caxinas emprega 450 pessoas DR

A fábrica de conservas da Gencoal, em Caxinas, Vila do Conde, vai continuar a laborar e as autoridades de saúde vão acompanhar a evolução do surto de infecções com coronavírus que ali se desenvolveu e que terá tido origem no regresso a Portugal do companheiro de uma das operárias, explicou esta quinta-feira a presidente da Câmara de Vila do Conde. Elisa Ferraz considera que as circunstâncias em que este caso se deu deveriam ser um alerta para o Governo português no que ao controle de fronteiras diz respeito. 

Para já, passaram de oito, ontem, para 15, esta quinta-feira, as pessoas com testes positivos: sete na fábrica de capitais italianos que emprega 450 pessoas e oito em círculos familiares destes trabalhadores. Quatro destas infecções são, segundo Elisa Ferraz, de crianças do infantário do centro paroquial de A-Ver-O-Mar, no concelho vizinho da Póvoa de Varzim. Esta autarquia redobrou também a atenção, tendo em conta que a Gencoal emprega mais gente a viver nesta cidade. 

Fábrica tem condições acima da media​

Com as autoridades de saúde a acompanharem de perto a situação desde o início da semana, Elisa Ferraz tentou, esta tarde, “tranquilizar” a população. Fê-lo ao final da tarde, à saída de uma reunião do conselho municipal de segurança, a cujos membros transmitiu os resultados de um encontro anterior. Neste participaram o delegado de saúde de Vila do Conde/Póvoa de Varzim e representantes da empresa - incluindo, por videoconferência, elementos da administração do grupo italiano que a detém e que tem sede na Sardenha. 

“Segundo o delegado de saúde”, a fábrica tem condições de segurança “até acima da média”, acrescentou Elisa Ferraz, repisando esta relação da empresa a Itália, país que teve uma duríssima experiência com a pandemia de covid-19 que levou, segundo os dados que foram transmitidos pelos seus responsáveis, à transposição para Portugal de normas de funcionamento mais exigentes. Isso não impediu, contudo, que os casos se multiplicassem, obrigando ao encerramento de uma linha de produção de salmão em conserva.

Afastado, para já, o cenário de encerramento temporário da empresa, a evolução do surto dependerá do comportamento das pessoas já infectadas, que estão isoladas, em casa, e do resultado dos testes já feitos a cerca de 80 dos 450 trabalhadores que diariamente passam pelas instalações. Segundo Elisa Ferraz, os resultados já conhecidos de boa parte destes testes serão negativos. 

Três semanas sem casos

Esta situação surge num momento em que Vila do Conde chegava às três semanas sem casos conhecidos. E desenvolve-se numa fábrica que, durante os meses mais duros da pandemia, nunca chegou a parar. O coronavírus entrou-lhes portão adentro quando o país – tirando parte da região de Lisboa – reaprendia a viver para lá deste ser minúsculo que mexeu com as rotinas de todos, e aquilo que se sabe sobre este foco serve já de lição para aquilo que enfrentaremos até ser encontrada uma vacina.

A sequência de casos que, pelo que se sabe, terá mesmo tido origem num viajante, tem depois uma explicação relativamente simples. Pessoas que se conhecem, que partilham a viatura para ir trabalhar, e que na fábrica trabalham na mesma secção, acabaram por estar entre os primeiros infectados. A linha de produção de salmão em lata foi a primeira a fechar, no início desta semana, mas entretanto o responsável pela área da refrigeração do peixe foi também contaminado. A seguir, soube-se que um dos funcionários mais antigos da casa, um encarregado, com cerca de 70 anos, estava também infectado. E perante este salto do vírus, de secção em secção, o medo generalizou-se. 

Funcionárias contactadas pelo PÚBLICO falam de uma semana de enorme tensão, com um ambiente de trabalho difícil. A empresa tem encomendas para entregar, foi-lhes dito, mas entre as mulheres, a vontade de parar, até que tudo se esclareça, era também notória.  “Andamos todas nervosas”, resumia uma operária que, por precaução já avisou os pais que deixará de os visitar até perceber – e não tinha, esta quinta-feira, sido testada – se estava ou não infectada. À saída para o almoço, ao meio-dia, enquanto fugiam das câmaras de televisão, algumas mulheres diziam de longe: “nós precisamos de trabalhar”.

Em cima da mesa, por proposta do Sindicato dos Trabalhadores da Alimentação do Norte, está a realização de testes a todos os trabalhadores. A acontecer, permitindo esclarecer, com rapidez, o alcance da infecção, a medida poderá ter um outro efeito: preservar as pessoas que ali trabalham da discriminação que elas vão já sentindo na comunidade. Uma operária, que nem se encontra a trabalhar, disse ao PÚBLICO ter recebido uma chamada do infantário dando-lhe conta de que não deveria levar o filho nos próximos dias. E de nada lhe valeu explicar que não tem estado na fábrica. 

"Temos de ter cuidado"

“Precisamos de ter cuidado de estar atentos, e esta questão da entrada de estrangeiros no nosso país, tão acalentada por todos, e principalmente nesta época do ano em que desejamos que a nossa economia volte a funcionar, com os turistas, é preocupante. É bom que as pessoas venham, mas é preciso cuidado, nos aeroportos, nas fronteiras. Eu deixo aqui este alerta, às entidades governamentais mas também a cada um de nós. Se recebemos um membro da nossa família, vindo de um país onde os níveis de infecção são grandes, devemos ter cuidado”, pedia, esta quinta-feira de manhã, Elisa Ferraz.

Para já, nenhum dos municípios foi contactado no sentido de fornecer apoio domiciliário, ou até alojamento, para as pessoas que, fruto dos testes positivos ou por se relacionarem com estas, se encontram em isolamento. Mas as duas autarquias garantem que, sendo necessário, podem ajudar estas famílias. Dentro da empresa espera-se que não haja mais casos e que os ânimos possam serenar.

 
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