Uma mostra para colocar Setúbal no mapa das artes performativas

Apesar de ameaçada pela pandemia, a segunda edição da MAPS vai mesmo avançar, entre 2 e 10 de Julho. Um momento de visibilidade para uma cidade que se quer tornar um centro de criação artística.

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Fantôme Méchant, de Ana Rita Teodoro Marie-Eve

A Mostra de Artes Performativas de Setúbal (MAPS) nasceu em 2019 a partir do reconhecimento de que existe hoje uma população artística emergente a fixar-se na cidade, da vontade assumida de fazer de Setúbal um pólo cultural e da aquisição pelo município de antigos armazéns (pertencentes à primeira gráfica do concelho) transformados em centro de criação. Este ano, a MAPS corria o risco de ver-se boicotada pelas condicionantes – de criação, de ensaios e de apresentação de espectáculos – levantadas pela pandemia, mas decidiu-se avançar, acolhendo algumas adaptações e integrando a incontornável temática do momento na programação.

“Quisemos arriscar, nem que haja só uma pessoa a assistir, embora esteja a haver uma procura muito interessante desta programação”, diz ao PÚBLICO a chefe da Divisão de Cultura da Câmara de Setúbal, Mónica Duarte. Esta é uma fase em que não podemos parar e muitas das criações, como a do Jean Paul Bucchieri, nasceram agora, durante o período de confinamento”, acrescenta. Bucchieri dirige esta quinta-feira o espectáculo de abertura da MAPS, Poema à Duração, texto de Peter Handke interpretado por João Lagarto, com nova sessão a decorrer na quarta-feira, dia 8. Explorando e reflectindo sobre a noção de tempo, Poema à Duração é uma das apresentações que terá lugar precisamente n’A Gráfica, um equipamento que, capacitado para receber espectáculos, está vocacionado sobretudo para albergar residências e que quer afirmar-se como catalisador de novas criações.

Assumindo a clara preocupação de programar espectáculos que possam gerar discussão e trazer a lume temáticas prementes, a MAPS coloca a actualidade bem no centro da acção através da instalação-performance Que Sabemos Nós da Multidão?, de Ricardo Guerreiro Campos, a apresentar no sábado (Jardim do Bonfim), na terça (A Gráfica) e na quinta-feira (Praça do Bocage), numa altura em que a proximidade entre corpos desconhecidos e os ajuntamentos aquecem as mais variadas trocas de argumentos. “A ideia é sempre sentarmo-nos e reflectirmos sobre estas temáticas e sobre como podemos alterar o paradigma – ou pelo menos a visão – através das artes”, explica Mónica Duarte.

Consciente de que a “covid-19 estará no topo da conversa”, a programadora da MAPS acredita que “continua a fazer sentido falarmos sobre migrantes e refugiados”, mas também sobre as liberdades do corpo, as questões de género e outras temáticas que não podem nem devem ver-se engolidas pelo assunto (pandémico) do momento. Assim, o encerramento da mostra, a 10 de Julho, n’A Gráfica, far-se-á com a abertura do processo criativo do Movimento Zebra, um projecto da companhia O Bando, sediada na localidade vizinha de Vale de Barris, resultante de um trabalho com a comunidade migrante do concelho. As questões de identidade e de género, muitas vezes em relação com costumes e práticas tradicionais, surgirão pela mão de Beatriz Dias (Musculus, dia 3, A Gráfica), Rita Vilhena & Yael Karavan (Ma-Ma, dia 6, A Gráfica) ou Ana Rita Teodoro (Fântome Méchant, também no dia 6, A Gráfica).

Nascida também do diagnóstico de um fenómeno novo, a aparição de uma comunidade artística emergente que está a fixar-se de forma crescente em Setúbal, a MAPS aposta ainda em momentos da programação focados nas propostas locais. Desde logo através da obra criada por Ricardo Guerreiro Campos, mas também chamando a revista FoMe, sediada em Palmela, para comissariar uma exposição do artista plástico João Fortuna e para coordenar uma série de conversas em torno da programação em espaços não convencionais ou daquilo que significa “ser artista emergente na linha do Sado”.

Ao Ateliê de Ópera de Setúbal caberá uma das ideias mais singulares desta MAPS. Sob o título Que ninguém durma! Que ninguém durma!, o maestro Jorge Salgueiro comandará no domingo instrumentistas e cantores na interpretação de árias de ópera que se farão escutar na Baixa e no centro histórico da cidade, animadas por várias dimensões simbólicas da palavra “liberdade”. Antes, durante a tarde de sábado, o Jardim do Bonfim será palco para os espectáculos familiares Muita Tralha Pouca Tralha, de Catarina Requeijo, e Sómente, do Teatro Só. A programação completa-se com Photomaton, de Fernando Mota (domingo, A Gráfica), Ex(am), de Tiago Bôto e Wagner Borges (dia 7, A Gráfica), e Asa d’Areia, do Teatro do Mar (dia 9, Praça do Bocage).

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