Cannabis provocou mais de 3200 internamentos hospitalares em 16 anos

Os números de internamentos por episódios psicóticos associados ao abuso ou dependência de cannabis aumentam a cada ano, num período em que a toxicidade da substância quintuplicou. Se uso recreativo da cannabis for aprovado, alerta investigador, há que activar os mecanismos de detecção precoce dos problemas.

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Internamentos por surtos psicóticos associados ao abuso de cannabis estão a aumentar em Portugal Diogo Baptista

Entre os anos 2000 e 2015, os hospitais públicos portugueses registaram 3233 internamentos por episódio psicótico associado a abuso ou dependência de cannabis. Os casos têm vido a aumentar de ano para ano, tendo-se passado dos 20 internamentos no ano 2000 para os 588 de 2015. E, mesmo considerando que este aumento possa decorrer parcialmente da crescente atenção dos profissionais de saúde para os efeitos adversos do consumo daquela substância, salta aos olhos que os surtos psicóticos associados ao consumo da substância estão a aumentar. Estes episódios acontecem quando as pessoas não conseguem distinguir entre a experiência subjectiva interna e a realidade externa, havendo uma desconexão do indivíduo entre o ambiente real e o ambiente subjectivo. 

Contas feitas por Manuel Gonçalves-Pinho, psiquiatra e investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Cintesis – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, os 20 internamentos com diagnóstico primário de episódio psicótico associado ao consumo de cannabis registados no ano 2000 aumentaram para os três dígitos em 2008 (com 190 internamentos) e aumentaram todos os anos até aos 588 de 2015. Em qualquer um dos anos em análise, 90% destes internamentos foram de homens. “Quando a cannabis é consumida em altas doses e tem um elevado teor de THC [substância psicoactiva que agrava os efeitos adversos], o risco de sofrer um episódio psicótico é muito agravado”, alertou aquele responsável, sustentando-se em estudos internacionais que mostraram que o teor de THC da cannabis quintuplicou nos últimos anos, tanto no mercado ilegal como no legal.

A partir da análise da base de dados que recolhe os indicadores que derivam de hospitalizações públicas, correspondentes a cerca de 70% do total de hospitalizações, o investigador concluiu ainda que os internamentos por episódios psicóticos associados ao consumo daquela substância representaram cerca de 11% do total de internamentos com episódio psicótico. “No ano 2000, eram 0,87%”, precisou, durante uma videoconferência promovida anteontem pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD).

Se considerarmos que o tempo médio de internamento destes doentes ronda os nove dias, e que “um dia de internamento é muito mais caro do que uma noite no Ritz”, como comparou Manuel Gonçalves-Pinho, torna-se óbvia a conclusão de que o custo para o Serviço Nacional de Saúde (SNS) associado ao consumo de cannabis é muito elevado.

Por outro lado, a média etária dos indivíduos hospitalizados por este motivo não passava dos 24 anos no ano 2000. Dezasseis anos depois, tinha aumentado para os 30 anos de idade em média. São, apesar do aumento, “muito mais jovens do que os indivíduos internados por episódios psicóticos não associados ao consumo de cannabis, cuja média etária ronda os 42 anos”, ainda segundo o investigador, cuja preocupação radica no facto de Portugal se destacar pela negativa no consumo abusivo ou dependente de cannabis. “No consumo pontual, nem moderado nem intenso, estamos abaixo da União Europeia, mas, quando comparamos o consumo moderado a intenso, estamos acima e tem vindo a aumentar nos últimos anos, o que também ajuda a explicar este aumento do número de hospitalizações”, adiantou.

Questionado sobre se a cannabis consumida por estes doentes era de fabrico sintético, Manuel Gonçalves Pinho disse não dispor de dados. “Quando lhes foi perguntado se, além da cannabis, consumiam outras substâncias, 3% disseram que sim”, precisou a propósito, adiantando que, na sua segunda fase, o estudo vai analisar quantas vezes o mesmo indivíduo foi internado pelo mesmo motivo. “O que achamos é que, depois de um primeiro episódio psicótico, o indivíduo tende a aumentar o consumo quase como se a cannabis tivesse um efeito anestésico para os efeitos posteriores do primeiro episódio, por mais paradoxal que isso possa parecer”, admitiu.

Faltam mecanismos de alerta nas escolas

Estes dados surgem numa altura em que parecem estar reunidas as condições políticas para Portugal avançar com a legalização do uso recreativo da cannabis. A primeira proposta a chegar ao Parlamento, em Janeiro do ano passado, foi chumbada com os votos contra do PSD, do CDS e do PCP, enquanto o PS se dividiu entre votos contra e a favor. Mas, meses depois, em Abril de 2019, o PSD admitiu, pela voz do deputado Ricardo Baptista Leite, fazer avançar uma proposta para legalizar a venda de cannabis em farmácias comunitárias a maiores de 21 anos para fins recreativos. Na altura, o deputado sustentou o anterior voto contra no facto de as propostas em cima da mesa preverem o auto-cultivo, algo com que os social-democratas dizem não concordar. Porquê? Porque desse modo torna-se impossível regular a concentração das substâncias activas da planta – além do THC, principal responsável pelos efeitos adversos, o CBD, a cujas propriedades se atribuem muitos dos efeitos terapêuticos associados à cannabis, os quais, de resto, justificaram a sua aprovação para fins medicinais, em vigor em Portugal desde meados de 2018.

Se Portugal avançar para a legalização do uso recreativo da cannabis, juntando-se a uma lista de países que incluem o Uruguai e o Canadá, além de 11 estados norte-americanos, o investigador desconfia da capacidade de controlo estatal do teor de THC da cannabis. “No Canadá, onde o uso recreativo foi aprovado em 2018, a potência do THC aumentou, quer no mercado ilegal quer no legal”, sustentou, alcandorando-se num estudo publicado em 2020 naquele país, cujos investigadores concluíram também que, devido à baixa dos preços, por via dos quais o Estado quis atrair os consumidores do mercado ilegal, o consumo aumentou na faixa etária entre os 12 e os 17 anos de idade. Do mesmo modo, os investigadores terão concluído que mais mulheres grávidas começaram a consumir cannabis “quando se aperceberam do seu potencial terapêutico para as náuseas”.

Dizendo não querer tomar partido na guerra entre os que estão a favor e contra a legalização do uso recreativo da cannabis, Gonçalves-Pinho foi avisando que, “se a legalização recreativa avançar, o país deve promover campanhas de alerta e activar os mecanismos de detecção precoce, quer nas escolas, onde a falta de psicólogos é uma das grandes falhas, quer nos cuidados de saúde primários, para que a detecção dos consumos problemáticos se faça o mais precocemente possível”.

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