Irão condena jornalista dissidente a pena de morte

Ruhollah Zam geriu um site e uma conta no Telegram que foram fundamentais durante os protestos de 2017. Esteve exilado em França mas foi detido no Iraque, em circunstâncias pouco claras.

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Protestos de 2017 causaram a morte de mais de 20 iranianos que protestaram contra o regime EPA/STR

As autoridades iranianas anunciaram esta terça-feira que o jornalista Ruhollah Zam, cujo trabalho foi fundamental durante a vaga de protestos no Irão em 2017, foi condenado a pena de morte. 

Ruhollah Zam foi considerado culpado de “corrupção na Terra”, um termo utilizado pela justiça iraniana para descrever tentativas de derrubar o regime.

Os protestos de 2017, os maiores no país desde 2009, foram impulsionados pelo aumento do custo de vida e do preço de alguns bens essenciais, principalmente alimentares, e começaram na cidade de Mashad, uma cidade santa, onde fica localizado o túmulo do imã Rheza. Além disso, foi nesta cidade que nasceu o ayatollah Ali Khamenei.

Rapidamente, os protestos espalharam-se a várias cidades iranianas, com ataques a esquadras, centros religiosos e bancos. Durante as manifestações, pediu-se a queda de Khamenei, uma reivindicação muito rara num país que não tolera qualquer contestação ao seu regime. Milhares de pessoas foram detidas e mais de 20 manifestantes foram mortos pela polícia.

Durante as manifestações, o jornalista Ruhollah Zam geriu o site AmadNews, onde eram colocados vídeos dos protestos e informações sobre as autoridades iranianas. Zam tinha ainda uma conta na rede social Telegram, que divulgava mensagens encriptadas entre manifestantes.

Por pressão do Governo iraniano, a conta de Zam no Telegram acabaria por ser encerrada e o pai do jornalista, o clérigo xiita Mohamamd Ali Zam, que desempenhou um cargo no Governo na década de 1980, escreveu uma carta a demarcar-se do filho.

Encurralado pelas autoridades iranianas, e por temer represálias, Ruhollah Zam fugiu para França, tendo vivido exilado em Paris desde então. No entanto, em Outubro do ano passado, Ruhollah Zam acabaria por ser detido em condições pouco claras no Iraque.

Segundo o New York Times, Zam pretendia criar um canal televisivo e foi convencido a deslocar-se ao Iraque para uma reunião com o ayatollah Ali al-Sistani, um influente clérigo xiita e rival de Ali Khamenei, que iria financiar o projecto. Assim que aterrou em Bagdade, foi detido e levado para o Irão. A mulher de Zam, Mahsa Razani, continua a viver em Paris, juntamente com o filho do casal.

O julgamento de Ruhollah Zam começou em Fevereiro, sem que o jornalista tivesse direito a um advogado. Foi acusado de fazer propaganda contra o regime iraniano, de cooperar com os Estados Unidos e de ser um espião ao serviço de Israel e França.

Depois do início do julgamento, o jornalista ainda apareceu na televisão iraniana a pedir desculpa pelos crimes de que foi acusado, mas a justiça iraniana acabou por condená-lo à morte.

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