Pares do Ímpar

Politicamente correcto? Eu saio aqui

Sou mãe e quero que os meus filhos sejam livres, absolutamente livres. Quero que conheçam o bom e o mau, quero que estudem os erros do passado e que lutem para que eles não se repitam no futuro.

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"Eu quero que eles sejam homens bons, homens de bem, homens cultos e íntegros" Chris Slupski/Unsplash

Quando me sentei para escrever esta crónica tinha um tema bem definido em mente. Era um tema inócuo, confesso, com muito baixa probabilidade de originar polémicas ou rasgões de vestes nas ruas. Acontece que, antes de abrir o Word, abri o Facebook e a notícia de que a L’Oréal vai retirar das embalagens dos seus produtos todos os termos relacionados com “branquear” e “clarear” apareceu-me de supetão. A ideia é tão profundamente infeliz que nem me dei ao trabalho de procurar a justificação da marca. É óbvio que também ela foi esmagada pela mão de aço do politicamente correcto e pela sua agenda supostamente progressiva. A questão é que eu tenho filhos, dois filhos pequenos, e não é este o mundo que lhes quero deixar e, vai daí, decidi-me por uma mudança de última hora. Posto isto, senhoras e senhores, bem-vindos a uma crónica que vos vai oferecer uma voltinha no carrossel do politicamente correcto. Queiram por favor tomar profilacticamente uma metoclopramida para evitar o aparecimento de náuseas.

O carrossel começa a girar

Primeiro começámos a ouvi-los devagar, lá muito ao longe, eram poucos e o que diziam mal se distinguia no meio do ruído de fundo. Gradualmente fomo-nos apercebendo de que o ruído foi engrossando e que as palavras se tornaram mais fortes e as mensagens cada vez mais sonantes. Eles não eram muitos, ainda não são, mas estavam bem posicionados. De repente a agenda deles começou a aparecer.

Começou a tentativa de reescrever a história e começaram a julgar-se factos e figuras com mais de cinco séculos à luz dos valores actuais. Alguns de nós foram levantando a voz, metendo o dedo na ferida, apontando… Mas prontamente a turba, cada vez com mais destaque nos meios académicos, na política e na comunicação social, se virou contra nós. É que eles são grandes defensores da liberdade, mas só para quem com eles partilha os ideais. E se quem discordar ou lhes manchar o argumento já não estiver vivo não há problema. As estátuas também caem.

A volta vai a meio

Um dia chegamos a casa, ligamos o serviço de streaming que pagamos mensalmente, e descobrimos que duas das nossas séries de culto desapareceram. Little Britain e League of Gentelmen sumiram-se. A justificação? As piadas com travestis e negros. Afinal, segundo parece, o humor tem limites. Ao mesmo tempo lemos também que E Tudo o Vento Levou vai ficar uns tempos indisponível e só voltará aos ecrãs quando estiver disponível uma contextualização histórica. E eu que pensava que a contextualização histórica era o facto de ter sido gravado em 1939 e de contar uma história passada em 1861. Enfim… É tudo demasiado mau. E a sensação que tenho é que isto só agora começou. A censura (sim, não me ocorre outro nome para isto) não vai ficar por aqui. Depois dos filmes e séries chegarão os livros e as músicas (e não é que não tenham tentado já, o Valete que o diga) e, quando dermos por isso, viveremos numa sociedade filtrada à luz deste politicamente correcto que vai acabar por nos engolir a todos.

Obrigada, eu saio aqui

Se a esta altura se estão a perguntar por que raio está alguém que costuma falar de maternidade a escrever sobre estas questões, não se aflijam, a resposta chega agora. É que não é assim que quero criar os meus filhos, encerrados num sistema de valores que lhes foi imposto, a aprenderem uma história totalmente filtrada e a transformarem-se em mais duas ovelhas num rebanho acrítico que esmaga quem ousar criticar as ideias da maioria.

Sou mãe e quero que os meus filhos sejam livres, absolutamente livres. Quero que conheçam o bom e o mau, quero que estudem os erros do passado e que lutem para que eles não se repitam no futuro, quero que percebam o que é humor de qualidade e que não olhem para os estereótipos retratados nos Simpsons com o horror absoluto de quem não consegue ver para além das palas que lhe foram colocadas. Os meus filhos ainda são meninos e, neste exacto momento, dormem no sofá, cada um para seu lado. Mas estes meninos um dia vão ser homens e eu quero que eles sejam homens bons, homens de bem, homens cultos e íntegros. E livres. Já vos disse que quero muito que eles sejam livres?