Opinião

De Murillo aos Painéis de S. Vicente: equívocos sobre a Conservação e Restauro

O uso constante da palavra “restauro” para designar este tipo de situações parece contribuir para uma perceção confusa e desinformada desta atividade e dos seus profissionais.

Depois de décadas a afirmar-se como disciplina científica, persistem na opinião pública uma série de equívocos sobre o que é realmente a Conservação e Restauro. Começo pelo relato objetivo de um acontecimento recente: um colecionador particular de Valência entregou uma pintura representando a Imaculada Conceição, uma cópia de uma obra de Murillo, a um autointitulado restaurador de móveis, que realizou uma intervenção danosa, deixando a imagem irreconhecível. Está ainda por definir se estes danos serão irreversíveis ou se os materiais utilizados nesta intervenção poderão ser removidos sem que se causem mais danos à pintura original, caso esta ainda exista numa extensão e estado de conservação que permitam a sua recuperação.

Admito que apresentar desta forma a situação possa ser menos apelativo do que os títulos que fomos lendo nos últimos dias: “Restauro desfigurou…” ou “Mais um restauro desastroso…”, mas é sem dúvida mais preciso e pode levar-nos a uma breve reflexão sobre a importância da terminologia que utilizamos. Começaria por assegurar que o que aconteceu não foi um restauro (antes terá sido o exato oposto de um restauro) e a pessoa responsável não foi certamente um restaurador, nem de mobiliário nem de outra tipologia.

O uso constante da palavra “restauro” para designar este tipo de situações parece contribuir para uma perceção confusa e desinformada desta atividade e dos seus profissionais. Exemplo disso mesmo poderá ser a recente polémica iniciada quando um grupo de autointitulados cidadãos preocupados se manifestou a propósito da atual intervenção de conservação e restauro dos Painéis de S. Vicente de Fora. As preocupações, manifestadas num inacreditável abaixo-assinado, espelhavam o receio de que o restauro fosse desvirtuar a leitura da obra, através da realização de limpezas excessivas e repintes (uma linha de atuação descrita nesse texto como o “ethos da restauração atual de pinturas a óleo”) e traduzem precisamente a confusão que inexplicavelmente persiste, para além de se revestirem de um profundo desrespeito e descredibilização de uma classe profissional ainda tão incompreendida. Trinta anos depois de surgirem em Portugal os primeiros cursos de nível superior e depois de tantas intervenções criteriosas, premiadas e divulgadas nos media pelos motivos certos, persiste inexplicavelmente este tipo de questões.

A mediatização destes casos, cujo auge foi o agora famoso “Cristo de Borja”, que de fenómeno mediático se transformou numa verdadeira atração turística, não ajuda a clarificar a situação já que dificilmente origina qualquer reflexão sobre o que significa a destruição deste património. Pelo contrário, gera-se uma quase simpatia por estas imagens deformadas, que vamos partilhando entre gargalhadas.

No âmbito da atividade do Centro de Conservação e Restauro da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, foram inúmeros os momentos em que nos deparámos com intervenções sem critério, justificadas por supostas limitações financeiras ou por uma expectativa de resultado final que um restauro com as devidas balizas éticas não pretende atingir. Encontrámos repintes grosseiros, alterações formais, adição de materiais desadequados, tudo o que pudéssemos imaginar e por vezes o inimaginável. Estes momentos trazem grandes desafios de carácter técnico, metodológico, mas também de ordem deontológica.

Não será com certeza realista pensar que conseguiremos evitar por completo o surgimento de novas situações deste género, mas podemos aproveitar o momento para tentar introduzir alguma clarificação e para sugerir a todos os cidadãos preocupados com o património que vejam e leiam sobre as verdadeiras intervenções de conservação e restauro que são realizadas, e bem, por profissionais devidamente formados e especializados.

Deixo um contributo sucinto, na perspetiva de um profissional: o conservador-restaurador tem como missão a preservação do património cultural e artístico. Trabalha dentro de limites éticos rigorosos e segundo um código deontológico perfeitamente estabelecido, pautado pela salvaguarda da integridade dos objetos a seu cargo, nos quais deverá intervir na medida do mínimo necessário à interrupção dos processos de degradação dos materiais constituintes e tendo como perspetiva a recuperação da leitura histórica e artística de cada obra, balizada no absoluto respeito pelo original.

A sua formação tem um carácter multidisciplinar, cruzando as humanidades, as ciências e a arte, de forma a permitir um entendimento de cada obra como um todo, no seu contexto histórico e artístico e na sua dimensão material, percebendo a conceção e a sua execução técnica, conhecendo e analisando os materiais que a constituem e como estes envelhecem e se degradam. Há muitas dimensões nesta atividade que ao longo das últimas décadas se tem afirmado como uma disciplina de forte carácter científico.

Como nota final, deixaria a noção de que é apenas ao conservador restaurador que compete intervir diretamente nos bens culturais e que a sua presença deveria ser imprescindível em todos os processos de recuperação, reabilitação ou preservação que os envolvam.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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