África subsariana: FMI admite que 39 milhões de pessoas caiam na pobreza extrema

Organização prevê que o PIB da região seja 243 mil milhões de dólares inferior ao valor projectado em Outubro de 2019. África subsariana já ultrapassou os 250 mil casos de covid-19.

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Thomas Mukoya /Reuters
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No melhor cenário, o FMI prevê um crescimento de 3,4% na região em 2021 YURI GRIPAS/Reuters

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa o crescimento económico para a África subsariana, admitindo que a região pode enfrentar uma recessão de 3,2% em 2020, um valor que é 1,6 pontos percentuais pior do que o previsto em Abril, e que pode deixar 39 milhões de pessoas a viver com menos de 1,90 dólares por dia, definição de pobreza extrema para o Banco Mundial.

Na actualização do Regional Economic Outlook, divulgada esta segunda-feira, o FMI faz uma revisão em baixa no crescimento económico de 37 das 45 economias da África subsariana, prevendo que o produto interno bruno (PIB) da região seja 243 mil milhões de dólares inferior aos valores projectados em Outubro de 2019.

No relatório, o FMI sustenta que a “covid-19 pode causar o primeiro aumento na pobreza global desde 1998” e, citando as estimativas do Banco Mundial, admite que a pandemia na África subsariana pode atirar entre 26 milhões a 39 milhões de pessoas para a pobreza extrema.

A actualização da previsão do FMI para a região admite que o impacto da covid-19 está a ser maior do que o esperado, o que faz com que a recuperação seja mais lenta do que as previsões iniciais. Nesse sentido, apenas é expectável um crescimento económico de 3,4% em 2021, o que mesmo assim é um valor 0,6 pontos percentuais abaixo da projecção de Abril deste ano.

“Prevê-se que o crescimento económico recupere para 3,4% em 2021, assumindo que o levantamento gradual das medidas de confinamento das últimas semanas se mantém e, mais importante, que a região consegue evitar as dinâmicas da epidemia noutros locais”, lê-se no relatório.

Esta dificuldade na recuperação deve-se sobretudo ao facto de os pacotes de ajuda financeira dos países da região serem “consideravelmente inferiores aos das economias mais avançadas e emergentes”, sendo que, segundo as projecções, o PIB real de países como Angola, Nigéria e África do Sul só deverá regressar aos níveis de crescimento pré-crise em 2023 ou 2024.

Segundo o FMI, a recessão atingirá, sobretudo, os países que mais dependem do turismo. Os países exportadores de petróleo também serão bastante afectados, tendo o seu crescimento económico sido revisto em baixo, esperando-se uma queda de dois pontos percentuais.

Em Angola, é expectável que a economia do país caia pelo quinto ano consecutivo, com uma redução de 4% no PIB em 2020, um valor de 2,6 pontos percentuais pior do que a previsão de Abril, reflexo da “declínio nos preços e na produção de petróleo, do apertar das condições de crédito e do declínio da actividade comercial domestica”. Em 2021, é expectável que o país cresça 3,2%.

Na África do Sul, a actividade económica deve contrair até 8% em 2020. As previsões, no entanto, apontam para um crescimento de 3,5% em 2021. Já na Nigéria, a contracção deverá ser de 5,4% em 2020 e é expectável uma recuperação de 2,6% em 2021, com o aumento da produção e dos preços do petróleo.

"Incerteza” quanto à covid-19

O FMI refere, no entanto, que estas projecção estão sujeitas a uma “grande incerteza”, tendo em a imprevisibilidade quanto à pandemia no continente.

Muitos países, como os Camarões, o Níger, o Ruanda ou a África do Sul, começaram a aliviar as medidas de confinamento no final do mês de Abril, apesar de ainda não terem atingido o pico de infecções. Por isso, segundo o FMI, “o aliviar das medidas de confinamento pode levar a uma aceleração ainda mais rápida no número de infecções, com efeitos potenciais devastadores para os sistemas de saúde”, apesar da população mais jovem da região ser uma vantagem, tendo em conta que a SARS-CoV-2 é mais letal nas populações mais envelhecidas. 

Além disso, a covid-19 pode agravar outros problemas da região, como a insegurança alimentar e as desigualdades sociais. Nesse sentido, o FMI defende que os países da região devem apostar em medidas que “salvaguardem a saúde pública” e que garantam “apoio às pessoas e empresas mais afectadas pela crise”, num contexto cooperação internacional.

Segundo os dados citados no relatório, a África subsariana já ultrapassou os 250 mil casos de infecção, tendo 60% dos casos sido detectados no Gana, na Nigéria e na África do Sul. Diariamente, são registados entre quatro a cinco mil casos de infecções. A manter-se este nível de contágio, o número de casos duplicará a cada duas a três semanas.

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