“Super Mario” completou um jogo que durou 17 anos

Mario Gómez ajudou o Estugarda a regressar à Bundesliga e despediu-se dos relvados. Com uma carreira de topo e um regresso às origens.

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LUSA/CHRISTIAN KASPAR-BARTKE / POOL

Houve um antes e um depois daquele jogo com a Áustria, no dia 16 de Junho de 2008. Nesse encontro da 3.ª jornada da fase de grupos do Campeonato da Europa, Mario Gómez recebeu um passe da direita em frente à baliza adversária. A bola ressaltou no relvado, subiu até à canela da perna direita e subiu em demasia, transformando um lance de golo iminente num falhanço monumental. Durante os anos que se seguiram, o avançado alemão procurou convencer os mais cépticos de que aquele momento em particular não o definia. E construiu uma carreira de respeito, de 17 anos, que agora chega ao fim.

Mario Gómez Garcia despediu-se do futebol com a mesma camisola que vestiu quando se iniciou como profissional, a do Estugarda. Depois de anos de grande sucesso, coroados de títulos individuais e colectivos e de duas experiências no estrangeiro, o avançado que representou por 78 vezes a selecção da Alemanha decidiu voltar a casa, em 2018. E entendeu que o momento de fechar o ciclo deveria coincidir com um final de época em que contribuiu para o regresso do clube ao principal escalão.

“Sempre foi o meu sonho, depois de uma grande carreira, que eu nunca poderia imaginar, retribuir ao Estugarda. Estou muito grato ao clube e é bom poder dizer adeus com uma época bem-sucedida. Foi a minha última missão”, declarou, no final do encontro com o Darmstadt, que até terminou com uma derrota (1-3) mas com um golo de despedida, aos 42’.

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Aos 34 anos, sai de cena um dos avançados mais imponentes do futebol germânico dos últimos anos. Filho de mãe alemã e pai espanhol (daí o apelido), começou a dar os primeiros pontapés na bola aos quatro anos, num clube local, a cerca de cinco quilómetros da cidade de Riedlingen, onde residia. Quando ingressou nas camadas jovens do Estugarda, em 2001, já era perceptível o faro goleador, o posicionamento na área, a capacidade de usar o jogo aéreo.

De então em diante, foi ganhando protagonismo. Chegou à equipa principal em 2003 e, em seis épocas, apontou 63 golos em 121 jogos, com a ajuda decisiva de Giovanni Trapattoni, treinador que o incentivou e o convenceu de que em breve chegaria à selecção da Alemanha. Acertou. E o Bayern Munique apressou-se a contratá-lo, apoiando-se também em “Super Mario” (uma das alcunhas que carregava) para um período de grande êxito, que incluiu um “triplete” sob o comando de Jupp Heynckes.

Nessa altura, era já um avançado consagrado, mas de certa forma ainda a tentar redimir-se do tal falhanço diante da Áustria. “Esse lance foi repetido na televisão vezes sem conta. Durante algum tempo, era nele que as pessoas pensavam quando ouviam falar de mim. Levei praticamente a carreira toda a mostrar a algumas pessoas que esse erro foi uma vez sem exemplo”, confessou numa entrevista à Deutsche Welle, em 2017.

Adepto do Barcelona, Mario Gómez também tentou a sorte fora de portas depois da estadia em Munique. Na Fiorentina, uma lesão grave logo nas primeiras jornadas hipotecou-lhe a temporada, mas no Besiktas, clube ao qual rumou por empréstimo, reencontrou a felicidade. Foram 26 golos em 33 jogos, que cimentaram mais alguns nomes de “baptismo” desportivo: Torero, Echter Neuner, Tank, Chancentod.

Ao todo, Mario Gómez disputou 587 jogos e marcou 305 golos. Com a camisola da Alemanha, foram 78 partidas na selecção A e 31 golos - a maior desilusão foi a ausência do Mundial de 2014, por lesão. Foi três vezes campeão alemão, uma vez campeão da Turquia, ganhou duas taças da Alemanha e um par de Supertaças, para além de ter conquistado a Liga dos Campeões, com o Bayern, em 2013. Para além disso, foi eleito o jogador do ano na Alemanha em 2007 e sagrou-se por uma vez o melhor marcador da Bundesliga e da Liga turca.

Jogador de “grande carácter, com tremendas qualidades de finalização”, nas palavras de Jupp Heynckes, “Super Mario” também é descrito como um homem com uma sensibilidade especial. “Quando era jovem e queria conquistar o mundo e ganhar títulos, desiludi muitos adeptos do Estugarda, por isso sempre foi meu objectivo mostrar às pessoas que ainda existe um certo romantismo no futebol. Esse lado romântico foi acabar aqui, onde tudo começou”.

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