Legalize Everything: Eric Andre, um louco à solta e sem papas na língua, como sempre

Entre as ironias na entretanto cancelada série Cops e as considerações sobre a “guerra às drogas”, o stand-up do humorista, disponível na Netflix desde 24 de Junho, mostra o olhar surpreendentemente actual e sempre desarmante do mestre do caos.

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A pertinência de Eric Andre chega a ser acidental nalguns casos, mas, de qualquer das formas, contribui para os melhores momentos de Legalize Everything DR

Não vamos directamente para o palco. Não, isso era quase demasiado normal para alguém que vive a desafiar convenções e a fazer tudo ao contrário. Primeiro, Eric Andre caminha desajeitadamente pelas ruas de Nova Orleães, equipado com o uniforme azul da polícia e um ridiculamente enorme bongo para fumar marijuana. Depois de, aos tropeções e em câmara lenta, sair do carro de patrulha, o comediante atira um saco de erva para dentro de um carro em movimento, desafia uma idosa a fazer uso do bongo para “apanhar uma moca”, tenta fazer sexo com uma parede e, como não podia deixar de ser, despe-se. O sketch que inaugura Legalize Everything, especial de stand-up que chegou a 24 de Junho à Netflix, é “clássico Eric Andre”, um exercício de desmantelamento do status quo com um nível picante de shock value, que serve para esconder um olhar crítico e sempre atento às idiossincrasias do mundo. Com tudo o que este pode ter de cronicamente injusto e de maravilhosamente ridículo.

O humorista infiltrou-se nos nossos radares quando, em 2012, pelo canal Adult Swim, ou o Cartoon Network depois de uma certa hora, estreou The Eric Andre Show, uma tentativa absurda e arrojada de fazer “o pior talk-show do mundo”. O programa, cuja quinta temporada segue já em fase de pós-produção, é uma desconstrução incrível do modelo repetido até ao ponto de fórmula matemática (e de exaustão) por Fallon, Kimmel, Colbert, Leno, Letterman e tantos outros no pequeno ecrã norte-americano. Um apresentador desvairado, um sidekick desarmante e imprevisível – falamos de Hannibal Buress, carta deliciosamente fora do baralho que também tem um especial de comédia a caminho (Miami Nights estreia-se no YouTube a 3 de Julho) –, muitos cenários destruídos e, acima de tudo, a reacção de espanto dos convidados – muitos dos quais, sobretudo nos primeiros anos da série, correspondiam a membros de uma Hollywood terciária, os típicos conhecidos por serem conhecidos.

The Eric Andre Show já trouxe momentos inesquecíveis na era da comédia feita overdose de surrealismo. A designer de moda Lauren Conrad saiu com pressa do estúdio depois de Eric tentar voltar a comer o seu (falso) vómito. Nick Cannon, “antigo parceiro musical do R. Kelly”, assistiu com desconforto à discussão entre Hannibal e o seu “pai” branco (e nu, claro). O comediante Sinbad desesperou enquanto jogava uma Roda da Sorte que não parava de rodar – e que, depois de interrompida à força pelo irritado humorista, resultou no prémio “ir para a Coreia do Norte”. Dennis Rodman, um dos companheiros de Michael Jordan nos portentosos Chicago Bulls dos anos 90 e sempre um personagem difícil de decifrar, bateu Eric Andre no seu próprio jogo, conseguindo ser mais estranho do que o estranho anfitrião. O talk-show para acabar com os talk-shows não precisa de muito para se rir da superficialidade do mundo da fama com que brinca e, como os seus criadores, encontra a sua harmonia no meio do caos.

Esse gene caótico passa para uma grande parte de Legalize Everything, embora o formato tradicional do stand-up, não transformável em pequenos vídeos de três minutos nos quais apenas assistimos aos melhores pedaços das experiências sociais disfarçadas de entrevistas com as diferentes celebridades de The Eric Andre Show, nem sempre seja o mais indicado para evidenciar as qualidades do humorista.

Apesar da força do sketch inicial, o especial demora a arrancar. Fiel ao título do espectáculo, Eric discorre sobre todas as drogas que já experimentou, falando da primeira drug trip com a mãe com a mesma naturalidade com que fala da ideia de criar um “chapéu de cocaína” (é como os chapéus de cerveja que os fãs de futebol americano ou beisebol popularmente levam para os jogos, só que com, vá, cocaína). Volta e meia, as punchlines surgem com o grito descontrolado que é já indissociável do humorista, mas, pelo menos durante o primeiro quarto de hora, temos dificuldade em afugentar a ideia de que a sua postura desperta mais risos que as suas palavras.

Nem tudo é um tiro ligeiramente ao lado neste primeiro segmento, no entanto. A história da sua amargura depois de perder o holograma do rapper Tupac Shakur no festival Coachella, em 2012, é genuinamente engraçada, e, mais do que isso, o seu comentário sobre a “guerra às drogas” parece particularmente pertinente num momento em que os Estados Unidos se confrontam com um período de especial tensão no que diz respeito à brutalidade policial e ao racismo estrutural (“A guerra às drogas fez zero para contornar o vício. Só permite que os polícias possam prender miúdos negros cinco vezes mais do que prendem miúdos brancos”, declara o comediante).

É esta pertinência, por vezes até acidental, que está por detrás dos melhores momentos de Legalize Everything. Será justo dizer que, quando gravou este especial em Outubro do ano passado, Eric Andre não conseguiria adivinhar que a série Cops, um título surpreendentemente marcante da televisão norte-americana, com pouco mais de 30 temporadas no currículo, seria cancelada e retirada da grelha do canal Paramount Network. Não seria, então, capaz de imaginar que a sua referência à faixa Bad Boys, a clássica canção dos jamaicanos Inner Circle utilizada no genérico, teria hoje um peso diferente. “Não é engraçado que uma série com uns polícias a bater num conjunto de negros arranque com uma música reggae?”, atira, desmascarando a ironia de um programa que, descreve a publicação Uproxx, apanha as pessoas “no seu pior momento imaginável”.

Chega a ser assustadora a forma como o humorista encontra uma risada no meio de um mundo sem graça. É claro que, depois do banho gelado de realidade, voltamos à paradoxalmente louca normalidade de Eric Andre, que, garantidamente, não será a normalidade da maior parte das outras pessoas. Regressamos às piadas sobre Louie C.K., sexo anal e pornografia, à nudez, às deambulações sobre religião, às maravilhas do LSD e a uma conversa pelo FaceTime com a mãe de um dos membros do público, que, qual coelho saído da cartola, encerra o espectáculo de uma maneira tão imprevisível como extraordinária. Legalize Everything não acerta sempre em cheio no alvo, mas não se preocupa demasiado com as bolas que vão para fora do estádio. E quando desenterra um diamante, não temos como não ouvir com toda a atenção.

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