“Balada de um batráquio”

Os rankings são vaidades de uns e tristezas de outros. Só isso.

Resistindo a todas as mudanças, capacidade de inovar, repensar paradigmas ou ultrapassar pandemias, ele aí está, o conceito de sucesso entendido como resultado de um exame. Ano após ano acentua-se a perceção social de que as escolas bem classificadas nos rankings serão as melhores, e que um aluno que nelas seja integrado terá melhores classificações nos exames e, porventura, uma vida de sucesso. Essas escolas são convidadas a explicar o seu “segredo”, ficando implícita uma relação forte entre a organização da escola e os resultados dos seus alunos.

Podemos admitir que os rankings, ou melhor, os resultados obtidos na avaliação interna e externa, são úteis para identificar tendências, assinalar boas práticas, detetar problemas, realçar desafios e pôr o país a discutir reformas na educação, no sentido de a melhorar. Mas é esta a oportunidade que anualmente se desperdiça. Os rankings não são um ponto de chegada, mas poderiam ser o ponto de partida para repensar um conjunto de problemas recorrentes — a incapacidade de proporcionar igualdade de oportunidades, um modelo de acesso ao ensino superior obsoleto, as discrepâncias regionais e a desertificação do interior, etc. Mas não são. Os rankings são vaidades de uns e tristezas de outros. Só isso.

Acrescente-se que os exames e os rankings não são sinónimo do trabalho que se faz nas escolas nem do acompanhamento das famílias para obter esse resultado, uma vez que as competências dos jovens vão muito para além das pautas de exame. De uma forma geral, a classificação feita pelos rankings não acrescenta qualquer valor para as escolas, pelo menos as públicas. Não é justo discutir o mérito por uma prova estandardizada que se reduz a duas ou duas horas e meia em doze anos de escolaridade obrigatória. Qual o lugar das motivações, das expectativas, das emoções, da partilha dos sonhos, dos projetos de vida que têm lugar ao longo de tantos e tantos meses de vivências na escola?

PÚBLICO -
Foto
Adriano Miranda

O ano letivo de 2019/2020 ficará na história das nossas escolas como um período atípico e prejudicial para muitos estudantes, em particular aqueles que mais necessitam de apoio e de enquadramento por parte das instituições que frequentam. De uma forma geral, os mais desfavorecidos têm maior dificuldade em obter bons resultados do que aqueles que pertencem a meios economicamente mais privilegiados. Este ano em que o mundo ficou ao contrário, entre os mais penalizados encontram-se os alunos com necessidades educativas especiais, os alunos institucionalizados e estrangeiros não falantes de português, deixando assim cair por terra a ideia de uma escola inclusiva até há pouco tempo tão cara ao Ministério da Educação. Mas descansemos que tudo continua organizado: o plano de contingência está a funcionar, ou seja, alunos, professores ou funcionários que tiveram resultado positivo no teste à covid-19 foram para casa assim como as respetivas turmas, os exames vão ocorrer com toda a normalidade e até os rankings estão a sair hoje para que os pais tenham tempo de escolher “as melhores escolas”.

Parece evidente que o próximo ano vai continuar a ser afetado pelos efeitos de uma pandemia ainda incerta… recordando Leonor Teles numa excelente conversa sobre a discriminação com os nossos alunos houve um que a questionou: “Quantos sapos ainda teremos de partir?”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

Sugerir correcção