Chefe da polícia da Cidade do México sobrevive a ataque e culpa poderoso cartel

Autoridades mexicanas vêem nesta tentativa de assassínio resposta a operações contra grupo de tráfico de droga. Atentado decorreu num dos bairros chiques da capital e mostra que “ninguém está a salvo”.

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Técnicos forenses analisam o local do crime Reuters/LUIS CORTES

O carro blindado em que seguia o chefe da polícia da Cidade do México e os seus guarda-costas foi alvo de um ataque num dos bairros ricos da capital: outro carro bloqueou-lhe a passagem, enquanto um grupo de homens com armas de calibre pesado disparavam. Outra viatura da polícia chegou com rapidez, mas os atacantes conseguiram fugir, deixando para atrás o blindado cravado de balas.

O alvo do ataque era Omar García Harfuch, que foi atingido no ombro, clavícula e joelho, mas sobreviveu. Já dois dos seus guarda-costas morreram no ataque, e uma mulher de 26 anos que passava de carro com familiares foi também atingida na troca de tiros e morreu. O palco do ataque foi o bairro chique de Lomas de Chapultepec, onde vivem muitas famílias ricas e há até residências de embaixadores.

Horas depois do ataque, na madrugada de sexta-feira, García Harfuch publicava no Twitter uma acusação contra o Cartel Jalisco Nova Geração, provavelmente o mais poderoso do país, que culpou pelo ataque “cobarde”. 

O diário El País diz que este ataque numa zona nobre da capital mostra a fraqueza das autoridades. A especialista Gladys McCormick, da Universidade de Siracusa em Nova Iorque, comentou à Reuters que esta é a prova de que “ninguém está a salvo” de tentativas de ataque do grupo criminoso. McCormick não tem dúvidas sobre a autoria do ataque, que segue o modus operandi do grupo Jalisco Nova Geração “ao pormenor”. 

Liderado por um antigo polícia, Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como “El Mencho” - classificado em Março como o inimigo n.º1 da América - o grupo usa a violência como método de expansão e controlo, assassinando agentes da polícia estadual, forças de segurança, exército - um dos seus golpes espectaculares foi quando derrubou um helicóptero com um RPG (lançada por rocket) há cinco anos.

O grupo aproveitou uma lacuna no mercado de drogas sintéticas, e foi crescendo à medida que outros rivais enfraqueciam, como o cartel de Sinaloa, de “El Chapo”, que foi preso pela última vez em 2015, extraditado para os EUA e não conseguindo evadir-se como das vezes anteriores, acabou por ser julgado e, no ano passado, condenado.

Mas este ataque tão ousado no coração da Cidade do México é uma escalada.

O Presidente, Andrés Manuel López Obrador, e a presidente da Câmara da capital, Claudia Sheinbaum, defendem que é prova da pressão que os cartéis de droga estão a sofrer. 

O cartel de Jalisco foi alvo de dois golpes recentes. No início do mês, conta o diário espanhol El País, as autoridades financeiras mexicanas congelaram quase 2000 contas ligadas ao grupo, depois de terem detectado movimentações de cerca de 20 milhões de pesos, mais de 800 mil euros. E em Março, uma operação liderada por forças anti-tráfico norte-americanas levou à detenção, nos EUA, de mais de 600 pessoas, apreensão de 20 mil quilos de droga e ainda de 22 milhões de dólares (19,6 milhões de euros). 

López Obrador tomou posse há pouco mais de ano e meio prometendo pacificar o México, mas o número de homicídios aumentou no ano passado, e a tendência não deu sinais de diminuir este ano. Este ataque, diz a Reuters, foi o mais recente de uma série de falhas de segurança que têm deixado dúvidas sobre a capacidade do Presidente controlar a violência dos gangues.

Apesar de os autores do ataque terem conseguido fugir, foi mais tarde anunciada a detenção de vários suspeitos, alguns em estados vizinhos, incluindo o homem que teria planeado o ataque.

Antes de chefiar a polícia da capital, Omar García Harfuch trabalhou na polícia de investigação onde esteve encarregado da captura de vários nomes importantes de cartéis, como um dos homens mais próximos de “El Chapo”, conhecido como “El Licenciado”. Em 2019, Harfuch foi transferido para a capital, onde começava a notar-se violência ligada a grupos de droga, e desde então a sua força levou a cabo várias detenções. 

A presidente da câmara ligou o ataque a estas detenções de elementos de outros grupos de droga. Mas muito aponta para o cartel mais violento e poderoso do México, e o diário El País também sublinha que pela equipa de García Harfuch passava informação sobre cartéis além da capital, incluindo o de Jalisco.

Notícia corrigida a 28.6.2020: 20 milhões de pesos mexicanos são aproximadamente 800 mil euros e não 800 milhões como era erradamente referido.​

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