Opinião

Afinal, não há plano A, B ou C, apenas o “logo se vê”!

"Torna-se imperioso tomar decisões atendendo às especificidades de cada ciclo"
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"Torna-se imperioso tomar decisões atendendo às especificidades de cada ciclo" Tiago Lopes

Começo a perder a esperança! Sim, ainda tinha esperança que o Governo estivesse a tratar do regresso às aulas em setembro. Mas depois do projeto de lei da redução do número de alunos por turma, proposto pelo BE, ter sido chumbado no Parlamento, a esperança desvaneceu-se!

Tive a oportunidade de assistir em direto à maior parte das intervenções no debate do dito projeto e o que vos tenho a dizer é que não, afinal, não há plano A, B ou C, apenas o “logo se vê”!

Com o argumento de que ninguém no mundo sabe o que acontecerá em setembro, o Governo e o grupo parlamentar do PS fogem das perguntas a esse respeito como diabo fugia da cruz. O que sabemos, até agora, é que o Programa de Estabilização Económica e Social destinou 400 milhões de euros para comprar computadores, um por aluno, dizem, visa garantir a modernização da conexão das escolas à Internet, pretende substituir os manuais escolares por licenças digitais e quer dar formação a docentes.

Não está aqui em causa a necessidade de dar este passo rumo à Escola Digital. O que está em causa é que isso só por si não resolve nada. Absolutamente nada!

As escolas, antes da covid-19, já tinham necessidades fraturantes, tais como a falta de professores de apoio/professores de ensino especial, falta de assistentes operacionais, falta de técnicos especializados, falta de psicólogos, pelo que mesmo que necessária não me parece que deva acontecer sem que seja acompanhada por outras medidas.

Veio o Ministro da Educação anunciar, pela comunicação social, numa visita a uma escola, que o início do próximo ano letivo será entre 14 e 17 de setembro. Acrescentou no dia seguinte que as primeiras cinco semanas de aulas seriam de recuperação das aprendizagens, mas esqueceu-se que isso se faz com o auxílio dos manuais escolares, que entretanto mandou recolher. Para espanto de todos, o Orçamento Suplementar, que é supostamente um instrumento de investimento público para dar resposta à situação pandémica com a qual iremos conviver mais uns meses, não disponibiliza um tostão para fazer face às medidas anunciadas, designadamente a recuperação das aprendizagens. Também não é possível vislumbrar nenhuma referência às várias perguntas lançadas diariamente por quem se preocupa com o início do próximo ano letivo. Haverá ou não desdobramento de turmas? Serão criados turnos diários? Serão criados turnos semanais? Como pensam organizar os vários ciclos? Estarão todos nas escolas?

Torna-se imperioso tomar decisões atendendo às especificidades de cada ciclo. Como referi aqui, no 1.º ciclo, onde a autonomia das crianças é reduzida, as aulas presenciais são fundamentais, sendo que o ensino remoto só deve ser usado no estritamente necessário e como complemento. Acredito que estes argumentos são igualmente válidos para o 2.º ciclo.

Será que, tendo em conta as premissas anteriores, não seria possível pensar num regresso faseado? Começando pelos mais novos, que usariam os espaços e salas deixadas vagas pelos ciclos seguintes, e consoante a evolução pandémica, fazer regressar os mais velhos.

Todos sabemos que planearão sobre um futuro demasiado incerto, mas por isso é que se torna imprescindível que desenvolvam vários planos, para estarmos todos preparados para vários cenários.

Planear tendo em conta algumas probabilidades:

  • Na existência de uma segunda vaga: O que fazer? Fechar as escolas todas? Fechar só a escola onde há casos? No dia seguinte estarão todos preparados para dar continuidade em modo remoto?
  • Houve uma enorme quantidade de baixas médicas entre as educadoras no regresso a 1 de junho. Qual a estratégia que será usada no caso de um cenário idêntico em outros grupos de recrutamento?
  • Como prevêem compensar o ensino à distância do último período, no início do próximo ano? Com contratação de mais professores? Será que é possível em todos os grupos encontrar professores? Com aumento de carga horária?
  • Podemos ou não contar com um desdobramento de turmas, por razões de distanciamento físico?
  • Será criado um programa nacional de apoio suplementar aos alunos com necessidades educativas especiais e suas famílias? Estes que mesmo em ambiente escolar já tinham falta de meios.

Muitas questões têm sido colocadas, mas para nenhuma há resposta!