Tudo calado sobre os padres casados

O novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa deixou cair uma bomba — “Não veria mal a possibilidade de termos padres casados” — e Portugal ficou calado. Ninguém tem nada a dizer, a favor ou contra? O que preparam os católicos conservadores?

O bispo José Ornelas foi eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e dois dias depois deu uma entrevista ao PÚBLICO. Já para o fim, deixou cair uma bomba: “Não veria mal a possibilidade de termos padres casados. Não vejo mal nisso.”

Não me lembro de ver um padre português com poder político real falar desta forma desassombrada sobre este tema. A hipótese de a Igreja Católica de rito latino passar a ter padres casados — como acontece na Igreja Católica de rito oriental e noutras religiões — é controversa. No mínimo, exalta os ânimos. Com facilidade, põe os católicos conservadores de cabelos em pé.

O bispo Ornelas sabe isso e — diz-me quem o conhece bem —, não se impressiona com a guerra entre católicos conservadores e católicos progressistas. Não ser cardeal, mas apenas bispo, pode desinibi-lo e dar-lhe liberdade. O peso do chapéu de cardeal é grande. Ornelas está alinhado com Francisco e, como o Papa, pertence a uma ordem missionária. Teve um cargo de governo — entre 2003 e 2015, foi chefe mundial dos Dehonianos, uma congregação católica dinâmica — o que lhe deu tarimba a gerir sensibilidades, a ouvir padres conservadores e padres progressistas, a fazer pontes. Dizem que é informal e afável, directo e franco. Tudo isto vai revelar-se na forma como vai fazer o novo lugar. Fazendo jus ao perfil, horas após a eleição, Ornelas abriu a porta ao debate sobre os padres casados e tomou partido. “Não veria mal.”

Pensei: é uma declaração inédita de alguém no topo da hierarquia portuguesa, que a anuncia mal chega ao lugar, vamos assistir a um debate e ouvir os que “veriam mal”, os que “veriam bem” e comparar a força dos argumentos — vai ser um Verão em cheio.

Pensei também ir à Igreja dos Mártires, no Chiado, ou à de Marvila, duas das igrejas lisboetas de que os fiéis conservadores mais gostam, lugares onde o Papa Francisco é visto como perigoso progressista. Também fui ver se a Rádio Renascença e a Ecclesia, a agência de notícias que é propriedade do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, órgão da Conferência Episcopal Portuguesa, tinham publicado notícias sobre a novidade do “não veria mal”. Nada. Nos sites dos conservadores clássicos, como a Comunhão e Libertação — o mesmo. Como ler o silêncio que caiu sobre a bomba “não veria mal”?

Fui falar com padres e pessoas que estudam e investigam a Igreja Católica portuguesa. O silêncio é desprezo, mas também medo, ouvi. Os católicos conservadores sabem que a escolha de Ornelas não é uma eleição inocente e que é uma mudança radical. Sabem que Ornelas foi eleito para abrir uma ruptura, porque obriga a uma clarificação. Sabem que é novo, tem tempo e genica. Sabem que catolicismo sem celibato pode até continuar a chamar-se catolicismo, mas será outra coisa — e não querem isso.

Também ouvi que os sectores conservadores vão fazer de conta que não viram as declarações do novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. Se lhes perguntarem, dirão que é uma questão resolvida, porque no sínodo do ano passado abriu-se o debate sobre os padres casados na Amazónia, mas no fim não houve luz verde. Mas se o Papa Francisco não abriu a porta, também não a fechou. E ouvi que admitir padres casados não é contra a doutrina, porque não é uma ideia essencial da Igreja Católica. “Há coisas da disciplina e há coisas da essência. Proibir padres casados não é da essência, porque nem sempre foi assim”, disse um padre.

Há uns meses, Anselmo Borges, padre-filósofo-académico, explicou no Diário de Notícias: Jesus foi celibatário, mas não impôs o celibato e teve discípulos casados, como São Pedro. Além disso, na Primeira Carta aos Coríntios, 9,5, São Paulo pergunta: “Não temos o direito de levar connosco, nas viagens, uma mulher cristã, como os restantes Apóstolos?” E na Primeira Carta a Timóteo diz: “É necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, ponderado, de bons costumes. Borges explica também que foi só no Concílio de Trento, no século XVI, que se impôs o celibato dos padres à Igreja do Ocidente.

O que mais pedem as alas progressistas da Igreja Católica? Que se abra a conversa na igreja. Sobre este tema e outros ainda mais difíceis, como o das mulheres padres. Estarem todos calados não faz o tema morrer.