Opinião

Época de caça aos bodes (expiatórios)

Já era hora de os jovens acordarem e perceberem que têm as costas largas, mas não largas o suficiente para carregar a incongruência, o desconcerto e a hipocrisia de políticos que usam as boas notícias como propaganda e as más notícias como um salvo-conduto para passar culpas.

Quando em Março os portugueses confinaram, não confinaram bem. Nada disso. Confinaram estupendamente bem. Mas isso era, obviamente, mérito do Governo. Ali pelos finais de Abril, princípios de Maio, se figuras de Estado abrissem um telejornal para anunciar que os portugueses eram mais uma vez os melhores do mundo, ninguém ficaria surpreendido. Aliás, desde que ocorreu aquele festival de mediocridade que foi a abertura de todos os telejornais do horário nobre com o anúncio da Final 8 da Champions League, que a única coisa surpreendente é que isso não tenha acontecido.

Chegados a Junho, tornou-se palpável aquilo que era óbvio há muito: se o confinamento continuasse no regime então vigente a economia desmoronar-se-ia ainda mais do que aquilo que já se desmoronou. Há quem nunca se tenha preocupado com a economia. Há até quem diga que quem se preocupa com a economia é um capitalista insensível. Eu digo apenas que a economia é uma tradução numérica da qualidade de vida das pessoas. Assim as pessoas que, como eu, se preocupam com a queda do PIB, não se preocupam com a queda per si, mas sim porque essa queda é o reflexo da quebra dos rendimentos dos cidadãos e da actividade produtiva do país. Isto é mesmo que dizer que aquilo que realmente nos preocupa é a pobreza. Quem acha que a pobreza não mata, tem dois partidos de extrema-esquerda no Parlamento cujos modelos de governação por esse mundo fora poderão esclarecê-los quanto à eficácia da pobreza na dizimação de seres humanos. E sim, antes, que me acusem de ser facho, também os há de extrema-direita, mas só os primeiros recebem 15,8% dos votos dos portugueses (o que demonstra a falência do nosso sistema de ensino, mas isso são contas de um outro rosário).

Como tal, percebemos, julgava eu, a inevitabilidade do desconfinamento que seria sempre uma faca de dois gumes: por um lado reabriria a economia minorando a pobreza supra-referida, por outro lado (spoiler alert) levaria ao aumento de contágios. É nesta dicotomia em que vivemos, numa impossibilíssima quadratura do círculo em que temos de equilibrar num dos pratos da balança o número de contagiados e a capacidade dos nossos serviços de saúde de fazerem face a eles e no outro todas as consequências que virão mais a jusante da pobreza causada pelo fecho das actividades produtivas, como, por exemplo, o desemprego, a criminalidade, a fome, entre outros e que, ao contrário do que muitos nos querem fazer acreditar, não são despiciendas.

Agora que desconfinámos aconteceu exactamente aquilo que estava previsto: a actividade económica está a aumentar e o número de contagiados com covid-19 também. Contudo, os números assustam mais do que aquilo que seria esperado à primeira vista pela nossa classe política. Afinal de contas, para quem passou os últimos meses constantemente a comparar-se com países estrangeiros que, na grande maioria, tinham uma escala e densidade populacionais muito maiores que a nossa para inglês ver (nalguns casos, literalmente) é muito fustigante ser agora comparado pelos piores motivos. Contudo, se há coisa que nunca nos desilude é capacidade dos políticos portugueses de fazerem cortinas de fumo sobre os verdadeiros problemas e é aí que abre a época de caça aos bodes (expiatórios).

A natureza humana rege-se mais pelo exemplo do que por qualquer outra forma. George Washington, que ultimamente tem tido mais cobertura mediática à escala mundial do que em 1776 por vivermos numa era onde se julga o passado pela lente “pura” dos valores morais do presente (vide a previamente referida falência do sistema de ensino, agora de forma mais lata, à escala ocidental), regia-se por um moto simples: “Deeds, not words.” Porém, a classe política portuguesa mais habituada que está a fazer regras para os outros que eles próprios prescindem de cumprir, segue a fórmula inversa “Words, not deeds.

Vamos lá compreender o seguinte: não é possível pedir a quem quer que seja para não fazer ajuntamentos e simultaneamente ir a concertos ao Campo Pequeno. Uma classe política que quer ser vista, a tomar banhos na praia e a ir espectáculos culturais, não pode, repito, não pode exigir este novo conceito de ética social aos seus concidadãos. Durante semanas, desde o inicio do desconfinamento vimos António Costa a ir a um concerto com mais 2000 pessoas no Campo Pequeno e Marcelo Rebelo de Sousa a ir ao mesmo concerto no dia seguinte, António Costa a ir ao concerto de Rita Redshoes e a celebrações parolas de que Portugal está tão bem encaminhado na luta contra a pandemia que até a UEFA, essa entidade de saúde europeia por nós tão bem conhecida, quer organizar jogos de futebol por cá. Ainda tivemos oportunidade de ver o PCP, perdão, a CGTP festejar o 1.º de Maio com autocarros vindos doutros concelhos, como do Seixal, quando o resto do país não podia sair do seu concelho de residência e, por fim, ainda tivemos a manifestação anti-racista, anti-capitalista, anti-machista e anti-polícia (ou melhor, a manifestação carregadinha de políticas identitárias marxista e pós-modernista) dos partidos de extrema-esquerda. Estes ajuntamentos, legais, indignaram poucos. O que indignou muitos é a festa de Odiáxere que é alvo de um escrutínio sobre o número de casos directos e indirectos de covid-19 nunca antes visto.

Assim, o que é importante para elite política, é arranjar bodes expiatórios para este problema e passar a narrativa de que se os casos estão a aumentar não é por falta de trabalho do Governo, nem da DGS, nem de organismo nenhum. Os jovens que se reuniram na praia de Carcavelos tornaram todos os jovens (num acto discriminatório que aparentemente não tem qualquer problema) num alvo: se há mais casos a culpa é dos jovens. Os jovens, essa massa imprecisa de elementos da população de idades compreendidas entre os X e os Y, que do alto da sua ignomínia se prestam a juntar-se e, imagine-se, a divertirem-se. É a loucura. Daí, a medidas pejadas de juízos de valor ultraconservadores perpetradas por socialistas que convenientemente se esquecem que faziam a mesma coisa quando os jovens eram eles, como a proibição de venda de bebidas alcoólicas a partir das 20h, é um passinho muito curto e fácil e que não revolta, aparentemente, ninguém apesar de limitar as liberdades individuais de todos os cidadãos.

Mas a verdade indesmentível é esta: onde há mais riscos de contágio por mais cuidados que haja? Em concertos com 2000 pessoas ou em festas em Odiáxere? Em manifestações de rua com milhares (como se presume que será a de André Ventura) ou em festas em casa com dez? Na vinda de adeptos que acompanharão as equipas na Final 8 da Champions, ou em botellones num parque de estacionamento qualquer? Os jovens são um alvo fácil: desencantados com as escassas oportunidades dadas pela geração dos seus pais que não lhes deixou nada a não ser um país cheio de dívidas e um sistema de reformas falido, não berram, não vociferam e, melhor que tudo, não votam. Assim a classe política pode facilmente realocar as culpas, sem perder eleitores. Já era hora de os jovens acordarem e perceberem que têm as costas largas, mas não largas o suficiente para carregar a incongruência, o desconcerto e a hipocrisia de políticos que usam as boas notícias como propaganda e as más notícias como um salvo-conduto para passar culpas.

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