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"Target" (1958), Jasper Johns
Conto em Tempo de Pandemia

Autocertificação (VII)

Há momentos em que é imperioso combater em duas frentes. Escolher apenas um combate e triunfar pode representar uma derrota estrondosa. Sónia resiste, desafia as ideias dominantes, apaixona-se.

Durante a pandemia, nada melhor do que ler Dante, O Inferno, pensou Sónia. Os mortos com quem Dante tanto conversa, enquanto vai caminhando em círculos cada vez mais apertados, a tricotar versos, continuam bem vivos. Falam, correm e saltam, têm corpo, sofrem dores, lamentam-se, choram. São como nós, afinal. Pedem a Dante que, quando voltar ao mundo dos vivos, fale deles, os recorde, os não deixe morrer na memória dos homens. Parecem exilados, com saudades de casa. Nós somos mortos diferentes. Sentimo-nos frágeis como bolhas de sabão. Sentimos que, a qualquer momento, vamos rebentar e desaparecer para sempre, sem termos sequer direito às penas do Inferno. Sentimos que ninguém nos virá visitar, nem ao cemitério nem ao outro mundo.