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Pela reabertura das escolas

Já era hora de as escolas reabriram, com turmas mais pequenas, com rotatividades, com intervalos intercalados, com uma panóplia de propostas que já foram sendo deixadas, mas que têm de ser postas em prática.

Estudar é o óleo que a máquina do desenvolvimento e progresso social precisam para reduzir as desigualdades que se verificam. A educação é o caminho a seguir para melhores qualificações e para condições de vida mais prósperas. Mas estaremos a fazer o que é preciso?

Desde o básico ao superior, passando pelo secundário e não esquecendo o pré-escolar, as incertezas são muitas, e compreensíveis. O que não começa a ser compreensível é a inacção política nesta matéria. Muitos foram os apelos, através de artigos de opinião nos principais jornais, para que o Ministério da Educação, através do ministro, se pronunciasse relativamente à abertura das escolas. Entretanto já o fez e será entre os dias 14 e 17 de Setembro. Eu compreendo que o receio seja grande, mas o voltar à normalidade implica toda uma linha de acção na sociedade que passa também pela educação.

Dos países da OCDE, Portugal é o que conta com mais tempo de férias dos alunos e depois destes três meses sem aulas presenciais, com os três meses que faltam para as referidas datas, com as dificuldades que se verificaram no acesso ao ensino online e ainda com a obrigatoriedade de devolução dos manuais, temo que o futuro das crianças de hoje esteja fortemente comprometido amanhã. É necessário ajustar o ensino a cada localidade. As dificuldades não foram iguais em todo o território. Tem de ser dada mais autonomia e maior flexibilidade às escolas para que estas tenham condições de resolver os problemas das suas comunidades escolares.

O Governo tem estado de parabéns nos últimos meses pela forma como geriu o desconhecido e como nos saímos no panorama mundial. As recentes sondagens mostram bem que os portugueses reconhecem esse mérito ao Governo e tal é inegável. Mas arriscamo-nos a não morrer da doença, mas a ficar gravemente afectados com a cura.

Portugal não tem assim tantos qualificados quanto se pensa, não somos o paraíso dos doutores ou engenheiros, estamos aliás bem abaixo da média europeia. A causa poderá estar no facto de que as nossas famílias são das que mais contribuem para a frequência do ensino superior e os nossos sistemas de acção social poderiam muito bem ser reforçados. Recentemente, a Convenção Nacional para o Ensino Superior deu nota de que apenas quatro em cada dez jovens de 20 anos frequentam o ensino superior, ou seja, são mais os que abandonam o sistema de ensino na escolaridade obrigatória do que os que prosseguem para ensino superior. E não admira. Ainda é caro e nem todos têm acesso às mesmas oportunidades.

Isto dito desta maneira parece lisonjeiro, mas a verdade é que, segundo estudos recentes, nomeadamente do Colabor, dentro do universo de jovens que trabalham, são os que têm mais qualificações que tiveram maior facilidade no acesso ao teletrabalho e por isso puderam manter os seus rendimentos, ao invés daqueles que, por força das circunstâncias se viram forçados a ficar em casa com perda de rendimentos. Apesar de que são os jovens os mais susceptíveis e vulneráveis, porque são os que têm vínculos de trabalho mais recentes ou precários.

Posto isto, vale a pena estudar, estudar muito. Já era hora de as escolas reabriram, com turmas mais pequenas, com rotatividades, com intervalos intercalados, com uma panóplia de propostas que já foram sendo deixadas, mas que têm de ser postas em prática. A minha maior preocupação recai naqueles que frequentam o ensino básico primário, que estão totalmente dependentes dos pais para a sua vida quotidiana, mas estes foram trabalhar porque o país não pára e mesmo aqueles que estão em teletrabalho já não conseguem acompanhar as aprendizagens dos filhos. É importante relembrar que ainda recentemente se estava a pensar na introdução de passagens administrativas, neste ciclo de estudos, porque a perda do grupo pode ser muito nefasta e ter consequências graves no futuro da crianças, maiores do que as vantagens que a retenção poderia trazer. Imagine-se a não frequência presencial durante seis meses. Que consequências trará?

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