Com cinco anos e as pernas amputadas, Tony caminha para ajudar o hospital que lhe salvou a vida

A gratidão levou o menino a caminhar todos os dias de Junho com o objectivo de juntar 500 libras — a seis dias do final do mês, já conseguiu mais de um milhão.

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“A força e determinação” de Tony não foram uma surpresa para os pais adoptivos Cortesia David Tett Photography

O mote e o exemplo foram dados pelo centenário britânico que, graças às suas voltas ao jardim, apoiado por um andarilho, amealhou para o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla original) mais de 36 milhões de euros. E a saga do capitão Tom Moore, que, entretanto, recebeu a patente de coronel-honorário, acabou por inspirar um menino de cinco anos, de Kings Hill, no condado inglês de Kent, no Sudeste do país.

Ainda em recém-nascido, Tony Hudgell teve de ser submetido a várias cirurgias após os abusos que sofreu dos seus pais biológicos, o que resultou, mais tarde, na necessidade de avançar com uma dupla amputação dos seus membros inferiores, do joelho para baixo.

Porém, o facto não faz de Tony um menino triste — pelo contrário. E o seu sentido de gratidão pelo sítio onde foi tratado fê-lo querer devolver um pouco da atenção recebida no londrino Hospital Infantil Evelina, decidindo caminhar todos os dias de Junho, até perfazer dez quilómetros, com o objectivo de angariar 500 libras (554 euros).

Mas a sua acção acabou por chegar mais longe e, a seis dias do final do mês, a criança já conseguiu mais de um milhão de euros online, a que se somam várias doações directas.

“Tony é uma absoluta estrela e é maravilhoso saber que o dinheiro que angariou vai ajudar crianças como ele e as suas famílias”, declara Caroline Gormley, directora associada da angariação de fundos no Evelina London, citada pela BBC.

Além da acção de solidariedade, as caminhadas permitiram testar as suas novas próteses. “Isto foi pensado para melhorar o seu andar, o que nos daria uma ideia se as próteses eram uma solução, o que já vimos que são”, explica Paula Hudgell, que, com o marido, adoptou Tony ainda em bebé.

Mas “a força e determinação” da criança não são uma surpresa para os pais adoptivos. “Ele simplesmente não desiste”, disse Paula Hudgell, numa entrevista ao Mirror, em inícios de Abril, quando ainda estava longe de imaginar o actual cenário e a propósito da intenção de o Governo libertar alguns presos no contexto da pandemia de covid-19. “É um rapazinho muito forte e também extremamente inteligente”, resumiu na altura.

De vítima a herói

Tony Hudgell foi adoptado por Paula e Mark Hudgell, ao lado dos quais encontrou um lar estável e repleto de afectos. Mas, o início da vida do rapaz não poderia ter sido mais atribulado.

Com apenas 41 dias de vida, Tony deu entrada no hospital, quatro dias depois de a mãe ter ligado para uma linha de saúde a relatar sintomas de uma constipação. No entanto, a 18 de Novembro de 2014, como foi dito em tribunal, o bebé exibia várias fracturas (tanto nos fémures como na parte inferior das pernas, um osso deslocado na parte inferior da perna direita e no respectivo tornozelo e fracturas na base do polegar esquerdo e dois ossos do dedo grande do pé), falência múltipla de órgãos e septicemia.

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Paula Hudgell @ Twitter

Os médicos não esperavam que o minúsculo bebé sobrevivesse, mas lutaram durante seis semanas para o salvar, sendo obrigados, mais tarde, a amputar ambas as pernas do menino, do joelho para baixo.

Os pais biológicos de Tony — Jody Simpson, na época com 24 anos, e Tony Smith, de 46 anos — foram considerados culpados e condenados a dez anos de prisão por causar ou permitir danos físicos graves a uma criança e por actos de crueldade a uma pessoa com menos de 16 anos — no entanto, as consequências dos ferimentos, como a dupla amputação, nunca foram relatadas no processo, tendo o tribunal tido conhecimento do facto após de deliberada a sentença.

E hoje Tony é um pequeno herói, pelo seu espírito resiliente e a sua vontade em ajudar quem precisa. Estamos tão orgulhosos dele todos os dias”, conclui a mãe.

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