Opinião

A depressão, o suicídio e os hipócritas

As redes sociais, aquelas que, curiosamente, nos bombardeiam com fotos plásticas e altamente trabalhadas de vidas perfeitas, encheram-se de apelos para que não se esconda o sofrimento.

O actor Pedro Lima durante um ensaio da peça "À espera de Godot"
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O actor Pedro Lima durante um ensaio da peça "À espera de Godot" LUSA/Manuel Almeida

Morreu ontem o actor Pedro Lima. Aparentemente terá sido mais uma das cerca de oitocentas mil pessoas que, anualmente, colocam termo à própria vida. O país ficou em choque e, por todo o lado, se multiplicaram as manifestações de pesar e surpresa. As redes sociais, aquelas que, curiosamente, nos bombardeiam diariamente com fotos plásticas e altamente trabalhadas de vidas perfeitas, encheram-se de publicações com apelos para que não se esconda o sofrimento. A incoerência abraçou o seu pico.

Não vou falar especificamente sobre a vida do actor porque não me cabe fazê-lo. Da sua história pouco ou nada conheço. Mas conheço a história de muitas outras pessoas que diariamente lutam com a doença mental, muitas delas em segredo, porque o mesmo país que ontem gritava “peçam ajuda” é o mesmo que continua a apontar o dedo e a estigmatizar quem assume frontalmente estar deprimido. “Tens de ser mais forte do que isso” diz. Quase como se a doença mental fosse uma escolha ou um sinal de fraqueza.

O suicídio mata mais do que o cancro da mama. E por este último saímos à rua, corremos, usamos laços cor-de-rosa ao peito. Mas em relação ao suicídio continuamos a assobiar para o lado, quase como se fosse uma coisa indigna de ser falada, uma coisa feia que precisa de ser escondida. E pior, julgamos, criticamos, atiramos a primeira pedra. “Mas ele tinha tudo para ser feliz”, dizemos quase chocados e cometendo o pior dos erros: avaliar, à luz de uma mente saudável, aquilo que se passa numa mente doente.

Ao longo dos últimos anos, a ciência (e consequentemente a medicina) evoluíram muito. Sabemos hoje que a depressão pode ser associada a factores genéticos e que o funcionamento dos neurotransmissores está afectado nesta patologia. Ainda assim muitos continuam a acreditar que a depressão se trata com “a força de vontade”, como se esta, por si só, aumentasse de forma significativa os níveis de serotonina de alguém. Se fizéssemos uma comparação directa com outra doença, por exemplo a diabetes, o que teríamos seria um amigo a quem diríamos “vá lá, tens que ter força de vontade para o teu pâncreas começar a produzir insulina suficiente”. É ridículo, não é? Pois…

E pedir ajuda de qualidade é difícil. Muito difícil num país onde figuras públicas de relevo dizem coisas como “tomar medicamentos para a depressão é que não, porque isso faz-nos deixar de ser nós próprios”. Assim mesmo, como se a farmacologia hoje fosse a mesma de há 40 anos e os antidepressivos fossem comprimidos que nos deixam tipo zombies a babar pelos cantos da casa. A sério, não sei mesmo a que ajuda é que estas pessoas se referem. É que os 50/50 só funcionam em programas como o “Quem quer ser milionário?”.

É urgente, muito urgente, combater estes preconceitos infundados. Se há quadros depressivos que até podem responder bem a intervenções não-farmacológicas, acreditem que muitos vão precisar dessa ajuda. E está tudo bem. Os antidepressivos não roubam a identidade de ninguém, antes pelo contrário. E os psiquiatras não são bichos-papão. São médicos competentes que tratam doenças concretas com aquilo que a ciência tem para oferecer.

A morte de Pedro Lima é uma tragédia. Há uma família que fica de coração partido e, quem passou por isso sabe, como diz o provérbio africano, que “um morto amado nunca mais pára de morrer”. A eles dirijo as mais sentidas condolências e peço desculpa em nome de uma sociedade que continua a falhar aos seus, que continua a fazer com que as pessoas com perturbações mentais sintam que se devem esconder. Que a morte do Pedro desta família sirva para, pelo menos, darmos um passo em frente enquanto sociedade. Que finalmente deixemos de lado a hipocrisia e estejamos realmente aqui para quem precisa de ajuda. Sem recriminações. Sem frases feitas. Sem julgamentos.

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