Anotações sobre racismo e raças

A ideia de que o “homem branco” – entidade indefinível, pura abstracção – dispõe de qualquer vantagem nativa para pensar ou agir é errónea, senão irrisória, e provém de um esquecimento da história.

O homem morfologicamente moderno, espécie que o naturalista Carl von Linné (séc. XVIII), num assomo de benevolência, denominou Homo sapiens, apareceu em África há cerca de 300.000 anos. Proveio de uma espécie de homem arcaico, H. erectus, também ele de origem africana, e formou-se a partir de um “gargalo genético”, ou seja, de uma reduzida população fundadora, o que implicou uma dotação genética (o chamado pool genético) bastante homogénea.

Originariamente, portanto, somos todos africanos, e foi na fase africana anterior às migrações para fora de África que se desenvolveu o homem comportamentalmente moderno, inventor da engenhosa cultura leptolítica (de pequenas ferramentas), que lhe permitiu sucessos insopesáveis na relação com o meio ambiente. Quanto aos mitos, ascendem decerto à origem da linguagem verbal articulada, comportamento em evolução provavelmente desde há dois milhões de anos, aperfeiçoado por patamares através de sucessivas espécies do género Homo, por via da selecção natural.

Há mais ou menos 100.000 anos, populações de H. sapiens saíram do seu continente de origem – como já acontecera com H. erectus – e povoaram a quase totalidade dos outros continentes (com excepção do Novo Mundo, onde a chegada de humanos foi tardia, e é ainda objecto de debate), substituindo pouco a pouco as populações de outras espécies do género Homo que neles habitavam. Mas o isolamento das populações da nova espécie nunca foi completo, e sempre houve uma orla de miscigenação na periferia dos continentes. Os humanos são seres migratórios por excelência, e a história das paleomigrações está em grande parte por fazer.

Por este conjunto de motivos – gargalo genético fundador, escasso tempo evolutivo (em termos de evolução, 300.000 anos é um tempo mínimo), cruzamentos intercontinentais –, a nossa espécie permaneceu bastante uniforme, sem formação de subespécies, variedades ou raças. Assim, a noção de “raças humanas” perdeu em ciência todo o valor operacional, e resta-nos distinguir e subdividir as populações actuais com base ou em grupos étnicos, ou em grupos linguísticos. Contudo, um pequeno número de genes que regulam certos traços físicos, tais como a estatura, o grau de melanina na pele, o enrolamento dos cabelos, o recorte da pálpebra e da asa do nariz, confere diferente aparência física aos humanos actuais.

A humanidade não se divide entre brancos e pretos. Quem viajar da África equatorial à Escandinávia, ou do Sudão rumo à Sibéria, encontrará um gradiente de colorações, com todos os matizes intermédios. A quantidade de melanina na pele varia com o ângulo de incidência dos raios solares, e tem forte valor adaptativo. Um congolês na Finlândia não receberá sol suficiente para manter a calcificação dos seus ossos, e um finlandês no Congo arrisca-se a adoecer com melanoma.

As diferenças de fenótipo indicadas são pretexto para as ideias racistas, que constituem uma forma de manipulação da realidade ao serviço de ideologias. A ciência da evolução do homem (hoje chamada Paleoantropologia) deu caução a diversos modelos racistas desde o final do séc. XIX. Mas, a partir dos anos 1970, os dados conduziram a um modelo que invalida o conceito de raça para a espécie humana (válido para designar fenótipos estáveis em animais domésticos, obtidos por selecção artificial). A biologia molecular e um conjunto de disciplinas de várias áreas confirmam, em convergência, o bom fundamento da nova perspectiva.

As ciências da natureza sempre foram, e são talvez mais do que nunca, alvo de apropriações e falsificações por parte das ideologias, atingindo o seu máximo à medida que nos aproximamos dos temas predilectos: a origem do homem e a sua posição no universo. Ora, enquanto o racismo clássico postula níveis diversos de capacidade intelectual entre os povos, a xenofobia admite capacidades equiparáveis, mas declara incompatíveis os comportamentos sociais.

São as variações físicas em conjunto com as diferenças culturais (crenças, práticas, interditos, normas de convívio) que levam às atitudes de estranheza e recusa do outro. Possivelmente não se encontra sociedade humana isenta de pensamento xenófobo: os nossos deuses são melhores do que os vossos, os nossos hábitos são preferíveis aos vossos, a nossa língua é mais perfeita, o nosso país é mais legítimo, etc. – humano, demasiado humano – e todavia produto do preconceito. À falta de outro critério, defini há tempos H. sapiens como o único primata que se guia pelo preconceito. Este decorre do uso da linguagem, que nos descola da natureza (em que permanecemos), como se tivéssemos um destino privilegiado.

Quanto à ideia de que o “homem branco” – entidade indefinível, pura abstracção – dispõe de qualquer vantagem nativa para pensar ou agir, é errónea, senão irrisória, e provém de um esquecimento da história. Durante milénios, o grande debate civilizacional das ideias na área da Europa deu-se nas margens do Mediterrâneo, entre homens de pele pigmentada (egípcios, gregos, persas, fenícios, romanos, hebreus). Os humanos de cor pálida eram denominados “hiperbóreos” pelos gregos dos grandes séculos. O que pensariam Sólon, Tales, Parménides, Protágoras, Anaxágoras, Tucídides ou Platão, se lhes dissessem que esses “bárbaros hiperbóreos” eram os mais dotados de entre os humanos?