Partido do Presidente sérvio prepara-se para vencer legislativas de sentido único

Nas primeiras eleições europeias pós-quarentena, há caminho livre para o Partido Progressista, do populista Vucic, triunfar confortavelmente. Parte da oposição diz que o acto eleitoral não é livre nem justo e não vai participar.

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Aleksandar Vucic não concorre, mas é presença destacada da campanha do SNS ANDREJ CUKIC/EPA

O Partido Progressista (SNS), do Presidente e homem-forte da política sérvia, Aleksandar Vucic, deverá vencer confortavelmente as eleições legislativas do país balcânico, agendadas para domingo. Apesar do desfecho anunciado, em grande parte devido ao boicote de diversos partidos da oposição, que acusam o líder populista conservador de ter viciado a competição eleitoral a favor do SNS, o evento está a merecer a atenção internacional por ser a primeira eleição europeia a realizar-se depois da quarentena decretada em todo continente, por causa da pandemia.

A eleição estava originalmente marcada para o final de Abril, mas foi adiada devido à crise epidemiológica. A principal novidade nas mesas de voto de domingo será a disponibilização de máscaras protectoras aos eleitores.

Com 12.800 infectados e 260 mortos por covid-19, numa população de cerca de 7,6 milhões de pessoas, a Sérvia teve uma resposta inicial eficiente para travar a propagação do vírus. Mas o desconfinamento tem levantado dúvidas junto dos vizinhos europeus. 

A Sérvia foi dos primeiros países a reabrir fronteiras e a levantar as restrições ao comércio e aos ajuntamentos, tendo ficado na retina a controversa decisão de permitir o regresso do futebol – uma verdadeira religião no país – com adeptos nas bancadas, antes da reabertura das escolas.

As sondagens mostram, ainda assim, que a maioria da população está satisfeita com a estratégia do Governo e dão ao SNS entre 50 a 60% das intenções de voto para domingo. Em segundo lugar, com cerca de 10%, surge o Partido Socialista (SPS), parceiro de coligação do SNS.

“As nossas sondagens durante a quarentena mostram que a confiança nas instituições do Estado cresceu. Em tempos de crise, é costume as pessoas reunirem-se em torno dos seus líderes”, diz à Reuters o director executivo da empresa de sondagens sérvia CESID, Bojan Klacar.

Vucic, o omnipresente

O líder sérvio não é, no entanto, um líder qualquer, mas o homem que manda nos destinos do país desde 2012, quando iniciou funções de vice-primeiro-ministro no Governo da época. 

Nos últimos oito anos, Vucic – um antigo ultranacionalista jugoslavo, que serviu como ministro da Informação de Slobodan Milosevic, e que suavizou o discurso até poder ser definido, nos dias que correm, como um populista conservador – exerceu ainda o cargo de primeiro-ministro e de Presidente da Sérvia, este desde 2017.

Na verdade, o chefe de Estado sérvio não concorre a qualquer cargo parlamentar. Mas o seu nome, já de si omnipresente, dá destaque à lista pela qual o SNS participa na eleição: “Aleksandar Vucic – Pelas Nossas Crianças”.

É a influência descomedida do Presidente na governação da Sérvia e a crescente deterioração da democracia no país que levou grande parte de uma oposição já muito fragmentada a perder a esperança no sistema político e a anunciar um boicote às legislativas. Uma tomada de posição corajosa, mas que aumenta ainda mais as perspectivas do SNS e dos seus parceiros de conquistarem a maioria dos 250 deputados da Assembleia Nacional.

Os principais partidos opositores denunciam o controlo de Vucic dos media, a perversão do princípio da separação de poderes entre presidência e Governo, a utilização do poder institucional para promoção do SNS e a cada vez maior asfixia à liberdade de expressão e à ala política e social liberal da Sérvia. Tudo somado, argumentam, faz com que as eleições não sejam “nem justas, nem livres”.

“A maioria da oposição entende que, na verdade, não temos eleições. Para haver eleições democráticas é necessário haver condições para as pessoas ouvirem coisas diferentes e expressarem-se livremente”, disse à Associated Press Dragan Djilas, líder da coligação União para a Sérvia, que vai boicotar as legislativas.

Parcialmente livre

Sasa Adamovic, analista político pró-Governo sérvio, afiança, no entanto, que o boicote da oposição não é mais do que uma cortina de fumo, para afastar as atenções das suas fracas perspectivas eleitorais.

“É uma maneira de esconderem as suas próprias fraquezas perante a população sérvia, não admitindo que, objectivamente, não têm quaisquer hipóteses nesta eleição”, disse Adamovic à Deutsche Welle.

O último relatório da Freedom House parece dar, ainda assim, alguma razão às críticas da oposição a Vucic. Segundo o estudo de 2019, a Sérvia foi despromovida de democracia “livre” para “parcialmente livre”, por causa da “deterioração da condução de eleições”, das “tentativas continuadas do Governo e dos media aliados de prejudicar o jornalismo independente através de perseguição jurídica e de campanhas difamatórias”, da “acumulação dos poderes executivos pelo Presidente Aleksandar Vucic, em conflito com o seu papel constitucional” e da “erosão dos direitos políticos e das liberdades civis”.

“Depois das eleições, é expectável uma degradação ainda maior das instituições, algo que já se tornou numa imagem de marca da liderança do SNS”, perspectiva Dusan Spasojevic, cientista político da Universidade de Belgrado, em declarações à Euronews. “Isto vai continuar até os sérvios decidirem reagir”.