Opinião

A negação

Quando se escreveu na Constituição que “libertar Portugal do colonialismo representou (...) o início de uma viragem histórica”, pensávamos que o colonialismo era o quê?

A primeira vez que fui a África, em trabalho, comentei a portugueses que me acompanhavam como era tão evidente a dualidade de critérios com que socialmente se tratavam brancos e negros. Estava em Moçambique, bem depois do período de privatização da economia, e a desigualdade social abria um fosso evidente entre moçambicanos negros, mas deixava todos os brancos de um mesmo lado: o de cima. Qualquer prédio, loja, restaurante ou bar tinha vários porteiros, em muitos casos armados, que paravam qualquer negro à entrada para perguntar o que pretendia mas não faziam o mesmo aos brancos, qualquer que fosse a nossa indumentária, calçado ou sotaque. Não se tratava, portanto, de distinguir entre quem reside e quem vem de fora, entre quem se conhece já e quem é desconhecido. O critério era automático: o do estatuto que a cor da pele nos atribuía. E era o mesmo em Maputo que em Lisboa ou no Porto, ou em Paris, ou em Nova Iorque. Confrontados com a situação, a quase totalidade dos meus colegas (alguns deles nascidos em África e de lá saídos na adolescência) deu a mesma explicação: tratava-se simplesmente de discriminação dos mais pobres. Nada de novo, portanto; era exatamente o mesmo comportamento que encontrávamos em Portugal e em qualquer sociedade desigual. E não há aqui racismo?, perguntei-lhes. Não; há pobres e ricos, é tudo. Ironizei perguntando-lhes se tinham virado todos os marxistas que nunca haviam sido, passando a entender que, afinal, as classes sociais não só não tinham desaparecido como o discurso fim de século sustentava, como continuavam a ser bem visíveis no espaço público - coincidindo curiosamente com a cor da pele, detalhe insignificante à luz desta explicação. Significava isto, insisti, que a descolonização formal, por si só, teria eliminado o racismo que contaminara todas as relações sociais durante séculos nas colónias portuguesas, especialmente nas décadas imediatamente anteriores à independência, feitas de guerra e de exploração intensiva de pessoas e recursos? Responderam-me que não fazia sentido falar de racismo num país onde os brancos tinham deixado de ocupar o poder político, e, além disso - e aí chegávamos ao cerne da questão -, nunca tinha havido racismo como tal nas colónias portuguesas. A conversa acabou quando eu disse que tal não era simplesmente verdade - e ouvi a resposta habitual: “nunca cá viveste, não sabes como era!” (Pois, e também nenhum de nós viveu no séc. XV do Infante D. Henrique, e contudo...)