Opinião
Dia 67: “Vai passar!” é mesmo a melhor mensagem que os pais recebem dos avós
Querida Mãe,
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No outro dia o Nelson Mateus, autor de um projeto chamado Retratos Contados, cujo objetivo é valorizar as relações entre avós e netos, pediu-me para escrever um texto sobre a importância dos avós para os meus filhos. Acabei por compor uma canção a partir do ponto de vista de uma criança, para falar daquilo que os avós trazem à vida dos netos: como nos dão uma perspetiva diferente de nós próprios, como nos contam estórias e histórias, como nos adoram, e nos dedicam tanta paciência e atenção, que por vezes falta aos pais. Mas fiquei a pensar nas coisas boas que também dão aos pais. Há uma delas em particular que “recebi” quando as gémeas nasceram e que até hoje é aquilo que mais me ajuda ouvir a pais e sogros: “Vai passar.”
Sempre que há um avô ou uma avó que lembra um pai/mãe de que, em tempos, ele também já foi um miúdo que também fazia birras horríveis (a que eles sobreviveram), que nós ou os nossos irmãos ou marido acordávamos de 3 em 3 horas e agora adoramos dormir, que “Também tu não comias nada”, e continuamos bem vivos, que “Devias ver como discutias com o teu irmão! Até te partiu a cabeça uma vez” e agora são inseparáveis, há um alívio imediato no nosso coração. Qualquer coisa que nos dá esperança e uma imediata ligação com aquelas pessoas que já estiveram “nas trincheiras”!
E o melhor desta frase é que serve tanto para as coisas más e difíceis, funcionando como uma bandeira de esperança e de confiança, como para as coisas boas: quando nos avisam “Atenção, não percas mesmo estes momentos porque vão passar”, relembram-nos que a infância dos nossos filhos não volta mais e que temos mesmo que a aproveitar, não perdendo tanto tempo com pequenas guerras que não interessam a ninguém.
Obrigada mãe por já me ter dito várias vezes que “Vai passar”, e sempre que estiver em dúvida sobre como me ajudar, já sabe que estas duas palavras são garantidas :)
Querida Ana,
É só isso? Posso gravar-te um CD com as duas palavras mágicas para ouvires no carro, enquanto elas discutem quem é que já pode ir à frente ao teu lado, queres? Garanto-te que passa. Daqui a pouco querem ir todas lá atrás para não implicares com elas por estarem ao telemóvel, em vez de a conversarem contigo.
Melhor ainda, vou mandar fazer um quadro para o vosso quarto a dizer “Vai passar”, numa daquelas luzes fluorescentes que se veem no escuro, em que descansarás os olhos de cada vez que um deles trepar para a tua cama. E faço-o de consciência tranquila porque passa mesmo. Aliás, passa de tal maneira, que vais mesmo ter saudades daquelas bolinhas quentes encostadas a ti, mesmo sabendo que vais acordar com um torcicolo.
Não o tires de lá mesmo quando deixarem de chamar por ti à noite, porque em breve vais precisar de repetir o mantra vezes sem conta, pela simples razão de que saíram com uns amigos para a “night” (ou o que quer que se chame na altura) e ainda não voltaram e tu, estupidamente, não consegues adormecer até os ouvires chegar, apesar de teres passado os últimos anos a dizer que não conseguias por o sono em dia — tanta hora desperdiçada.
Mas o que tens mesmo é de escrever o senhor Einstein, porque o que aqui está realmente em causa é a relatividade do tempo. Todos os avisos que os avós possam fazer são poucos: gozem mesmo bem todos os minutos deste tempo em que eles são tão queridos, tão espertos, tão divertidos, porque passam a voar (quase não reconheci o Mini E quando o revi depois do confinamento). Mas, infelizmente, a velocidade com que a areia corre na ampulheta é bem mais lenta quando se trata de aturar birras, respostas tortas ou, sobretudo, noites de insónia. Aí desculpa, já me esquecia, a minha parte nesta história é só dizer “Vai passar”. Querida, vai passar.
No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram