Opinião

Ensinamos o que sabemos, mas também quem somos

Reconheço que o ensino presencial universitário português não era perfeito até fevereiro de 2020, lutei contra o modelo “clássico” expositivo toda a minha vida, mas recuso-me a admitir que este momento, difícil, seja a altura adequada para o substituir pelo ensino à distância, apenas por razões “tecnológicas”.

O povo português, baseado na sua secular experiência, costuma dizer: “quem sabe faz, quem não sabe ensina.” Já os ingleses falam no “lerning by doing”, ou seja, “aprender fazendo”, que é o passo seguinte.

É verdade que, muitas vezes, aprendemos enquanto fazemos e é também certo que, na maior parte dos casos, é melhor aprender com quem tem experiência na matéria. Mas ensinar e aprender são os atos que caracterizam a humanidade como a espécie geradora do conhecimento, tal como o consideramos, no nosso planeta. Para que tal continue a acontecer é preciso gerar novos conhecimentos e transmiti-los às novas gerações que os irão depois utilizar e transformar, possibilitando assim o progresso, nas suas múltiplas vertentes. Neste contexto, a experiência é essencial, mas sem reflexão crítica podemos perpetuar erros até à eternidade. Essa atitude de questionar para ensinar e para aprender só é possível num debate aberto sem barreiras, quaisquer que elas sejam, humanas ou tecnológicas    

Lamberto Maffei, médico e neurocientista italiano, escreveu recentemente um ensaio intitulado “Elogio da Palavra”, no qual chama a atenção para as armadilhas da sociedade digital na aprendizagem que nos podem levar, simplesmente, a deixar de comunicar pela palavra. Este risco terrível é sobretudo evidente nos mais jovens, que comunicam quase sempre por mensagens digitais. A ausência de comunicação verbal, a única que permite o pensamento reflexivo e crítico, é compensada pelo consumo da informação visual e auditiva que mostra a esses jovens um mundo artificial onde navegam, mas não vivem. Esse mundo, já tão estereotipado, foi agora sacudido pela epidemia da covid-19, o que pode trazer graves problemas adicionais para o ensino e para a aprendizagem das gerações futuras porque as confinou nos seus espaços individuais, afastando-as das instituições de ensino e do convívio social. Contudo, a solução do problema não depende delas, mas de outros intervenientes no processo educativo.

Refiro-me, concretamente, aos novos arautos da aprendizagem digital que ressuscitaram práticas, sem dúvida adequadas para o ensino à distância, e que agora as utilizam, vorazmente, para “resolver”, numa perspetiva consumista, os problemas do ensino, do secundário ao superior. Recordo-me de uma outra “onda modernista” que sucedeu há alguns atrás, designada como ensino assistido por computador, que também fez vibrar os mais sensíveis às “novas tecnologias”. Felizmente, não resistiram à força da palavra, ao desafio do debate aberto e, sobretudo, à espontaneidade de quem pode perguntar e receber o extraordinário estímulo dado por uma resposta que é uma nova pergunta.

Reconheço que o ensino presencial universitário português não era perfeito até fevereiro de 2020, lutei contra o modelo “clássico” expositivo toda a minha vida, mas recuso-me a admitir que este momento, difícil, seja a altura adequada para o substituir pelo ensino à distância, apenas por razões “tecnológicas”. Reconheço, igualmente, que se fizeram milagres para manter as instituições em funcionamento nos últimos meses. Mas é exatamente por isso que proponho que aproveitemos esta crise para rever o modelo de ensino e aprendizagem do nosso ensino superior, com todos os recursos disponíveis, presenciais e não presenciais, mas sem facilitismos baseados em receitas requentadas ou acessos a links “estafados” que nem sabemos se resultaram nos locais onde foram produzidos. Os estudantes não perdoariam a nossa incapacidade de enfrentarmos com eles, ombro a ombro, os desafios cognitivos da sociedade digital que se situam muito para lá de comunicarmos apenas por meio de écrans ou de obtermos uma qualificação académica a assistir a MOOCS (massive open online courses).

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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