Chegou um torneio para revolucionar o ténis mundial

Jogadores do top-10, jogos de apenas 40 minutos, 15 segundos de paragem máxima entre cada ponto, possibilidade de provocações entre jogadores e até cartas “mágicas” com castigos para os adversários. A revolução chegou ao ténis.

O "plantel" do primeiro Ultimate Tennis Showdown
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O "plantel" do primeiro Ultimate Tennis Showdown DR

“A idade média de um fã de ténis é 61 anos. Daqui a dez, talvez 71. Isso será um problema”. É esta a premissa que sustenta a criação do Ultimate Tennis Showdown (UTS), um torneio de ténis inovador que começa neste sábado e que pretende aproximar-se das gerações mais novas: jogos mais curtos, permissão de manifestações emocionais dos jogadores e até inovadoras cartas com “castigos” para os adversários. No fundo, mais rapidez num desporto com pouco tempo útil de jogo, maior autenticidade dos atletas e maior imprevisibilidade – e até humor – durante as partidas.

Patrick Mouratoglou, treinador de Serena Williams, foi o criador de um torneio que está, no entanto, longe de ter jogadores secundários do circuito, apresentando um lote de tenistas restrito e de respeito: é um torneio com dez atletas, dos quais quatro estão no actual top-10 do ranking ATP. A saber: Dominic Thiem, Stefanos Tsitsipas, Matteo Berrettini, David Goffin, Benoit Paire, Richard Gasquet, Feliciano López, Lucas Pouille, Alexei Popyrin e Dustin Brown.

Jogos de dez minutos e provocações entre jogadores

Em matéria de formato, a competição, cuja primeira etapa será jogada em França, é relativamente simples. Os dez jogadores defrontam-se durante cinco fins-de-semana e, no final, os seis que somarem mais pontos qualificam-se para a fase eliminatória, sendo que, desses seis, os dois mais pontuados apuram-se directamente para as meias-finais.

As maiores inovações surgem nas regras dos jogos, que serão disputados com um cronómetro. A partida divide-se em quatro partes de dez minutos, sendo que um jogador vence cada um dos quartos tendo mais pontos marcados do que o adversário ao fim dos dez minutos.

O vencedor do jogo é o tenista que chegar primeiro aos três quartos ganhos (em caso de 2-2, joga-se morte súbita até alguém vencer dois pontos seguidos). Haverá, ainda, uma limitação de 15 segundos entre cada serviço.

A ideia é ter jogos curtos e poucas paragens, de forma a aumentar o valor de apenas 8% de tempo útil de um jogo de ténis. Algo que agradará, primeiro, a uma geração mais jovem e sedenta de conteúdos de consumo rápido e, depois, às próprias televisões, sempre com receio de ter na grelha eventos de uma modalidade cujos jogos acarretam muita imprevisibilidade no tempo de duração.

“A duração dos jogos é uma questão discutida há muito tempo. O formato está cada vez mais problemático para as televisões, que reclamam da imprevisibilidade. Como o tempo de duração dos jogos pode variar muito, é difícil e arriscado agendar ténis nas grelhas”, começou por explicar Mouratoglou à Reuters. E acrescentou: “Os fãs mais jovens também não gostam [do formato actual]. Num mundo em que tudo é acelerado, as novas gerações desejam conteúdo rápido, concentrado e pronto para consumir”.

Outro aspecto que agradará ao público mais jovem é a humanização do atleta a vários níveis. Primeiro, porque o espectador poderá ouvir, por exemplo, as conversas entre jogadores e treinadores. Depois, porque o torneio não aplicará penalizações aos jogadores que tiverem reacções mais agressivas, ao contrário do que acontece no circuito ATP. E poderão, até, provocar os adversários entre pontos  o chamado trash-talk. “Quero autenticidade. E quero que os jogadores consigam estar no campo e expressar todos os tipos de emoções”, explicou o criador.

As cartas “mágicas”

Um dos factores que promete criar mais interesse aos espectadores são as cartas que os jogadores poderão utilizar durante as partidas. Com ajuda do treinador, poderão, por exemplo, jogar a carta “ganhar em três pancadas”. Aplicando-a, o atleta obriga o adversário a vencer o ponto seguinte num máximo de três pancadas. À quarta, perde automaticamente o ponto.

Outra carta que promete trazer alguma emoção é a possibilidade de, no ponto seguinte, o adversário só servir uma vez. Isto equivale a dizer que, se falhar o primeiro serviço, é considerada automaticamente uma dupla-falta.

Apesar de todas estas inovações, Mouratoglou garante que o UTS não se tratará de uma brincadeira. Mesmo não sendo um torneio com a chancela ATP – e, por isso, não conta para o ranking –, o criador garante não ter inventado um mero torneio de exibição. “É uma competição real. Os jogadores ganham prize money e, no final do ano, há um campeão. Vão estar com motivação igual à que têm em qualquer outro torneio”, disse, sobre uma competição que, para já, não terá público nas bancadas, devido à pandemia de covid-19, mas que terá uma forte presença digital.

A organização do torneio estipulou que cada jogo terá um prémio distribuído 70% para o vencedor e 30% para o derrotado. Ou seja: não haverá uma lógica de “winner takes it all”, mas sim de win-win, em que se reduz a pressão para um jogador de fora do top 100, por exemplo, que saberá que, seja qual for o desfecho da partida, ganhará algum dinheiro.

Mouratoglou explica que a ideia é “criar o ténis do futuro” e garante que não quer concorrer com os circuitos ATP e WTA. “Se funcionar e se o ATP e o WTA quiserem ter o UTS sob a sua alçada, ficarei feliz em fazê-lo”, acrescenta.

O grego Stefanos Tsitsipas é um dos maiores entusiastas deste formato. O actual campeão do Estoril Open considera que o ténis não está condenado a ser um desporto para pessoas velhas e acredita que o UTS “é um produto revolucionário, que trará algo fresco” e que “vai ajudar a expandir os horizontes”.

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