Quem matou um ucraniano no aeroporto de Lisboa, Dr. Rio?

Rui Rio tem aquela espécie de sorriso permanente naïf. É um homem descansado que não entende que se façam manifestações contra o racismo em tempo de pandemia, como se nos EUA não houvesse pandemia. Uma manifestação é uma aflição.

Rui Rio tem aquele ar bonacheirão que gera uma certa empatia. Ele pega nas palavras e utiliza-as de coração nas mãos. Diz coisas que um político em geral não diz. Percebe-se que não preenche o chamado figurino made in PPD/PSD das últimas décadas, daí a intestina guerra que lhe movem.

O homem pragmático, conservador tem tendência a ter de si uma ideia de que o importante é gerir o status quo sem ondas. É avesso a sobressaltos. Não é um homem inquieto, mesmo quando Montenegro e tutti quanti lhe fazem a vida negra.

Foi secretário-geral do PSD quando Marcelo era Presidente. Marcelo, o irrequieto e ambicioso, Rio o pacato, o burocrata a guardar a estrutura das tolices de Marcelo sempre pronta a mergulhar somewhere.

Rio, na entrevista dada à TVI no dia 8 deste mês, entre o politicamente correto e o seu conservadorismo/autoritarismo, largou a embraiagem e seguiu em frente – indignado com as manifestações antirracistas, se fosse ele que mandasse proibia tais manifestações. George Floyd foi assassinado nos EUA, porquê manifestações em Portugal? Para a mente de Rio nada o justificava… é a sua alma.

Rio falou com o coração e daí o seu espírito conservador não poder alcançar os sentimentos de indignidade perante aquele horror. Isto de manifestações é mais da esquerda do que do conformismo que ainda abraça uma imensa percentagem dos portugueses. Racismo na mente de Rio já não existe porque viola a lei. Esqueceu-se que um ucraniano foi morto à pancada no aeroporto de Lisboa dentro do SEF por polícias.

Assumiu que proibiria as manifestações, se mandasse. Só faltou dizer que enviava a tropa de choque. Em Portugal as manifestações não precisam de autorização, esqueceu-se.

No domínio da economia ele também não passa da iniciativa privada. O risco, a alma do capitalismo, é tempo passado. O Estado é gastador se “desperdiçar” dinheiro em serviços públicos robustos. Mas já não o é se socorrer os privados, investir milhares de milhões e voltar a entregar a quem não é capaz de gerir empresas e bancos. A superioridade da gestão privada em muitos casos assenta no princípio de que o Estado é a ambulância para a salvação, custe o que custar. Banqueiros e certos empresários, façam o que fizerem, quem paga é o mexilhão. A imoralidade roça a indignidade – os cortes passados das pensões em contraste com os mais de 20 mil milhões para o sistema financeiro.

Rio chegou a líder do PSD, um partido que se foi tornando cada vez mais direitista e onde muito do conservadorismo da pequena e média burguesia, em certas circunstâncias, se sente cómoda.

Rio gostaria que a política fosse um universo no qual haveria um chefe que ditaria os comportamentos de todos, e tudo conforme a lei e as próprias Escrituras. O que mais o aflige são os sobressaltos. Ele não nasceu para eles.

O PSD já conheceu de tudo, desde Sá Carneiro destemperado, passando pelo homem que nunca se enganava, pelo alcoviteiro Rebelo de Sousa, por um ex-maoista, sem esquecer o que atualmente na SIC garantiu que o BES era seguríssimo e que costumava jogar à sueca com Eurico de Melo, e que dá cartas sem contraditório naquela estação.

Rio tem aquela espécie de sorriso permanente naïf. É um homem descansado que não entende que se façam manifestações contra o racismo em tempo de pandemia, como se nos EUA não houvesse pandemia. Uma manifestação é uma aflição. Rio há muito comprou a ladainha de que em Portugal não há racismo, mesmo com escândalos como o do homicídio de um ucraniano no aeroporto de Lisboa. Ele vê o que imagina, o mundo conforme à conformidade.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico