A cara feia faz-se mais difícil a quem nos sorri

Estamos sempre de cara posta desde o momento em que acordamos para a vida até ao momento em que dela nos despedimos, não temos hipótese nem alternativa e o que fazemos com ela nem sempre é opção nossa.

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Teresa Pacheco Miranda

A cara que fazemos perante a vida tem muito que se lhe diga e mais ainda aquela que fazemos perante uns e outros. Podemos fazer uma cara diferente a cada nova circunstância ou a cada nova pessoa com a qual somos forçados a conviver ou simplesmente a conversar. Fazemos cara feia à comida de que não gostamos ou enrugamos a testa perante uma exclamação mais estapafúrdia, mexemos vários músculos da mímica facial para vincar um único propósito ou simplesmente para falar sem termos de abrir a boca. Muito do que somos e do que fazemos somo-lo e expressamo-lo não só, mas também, através da nossa expressão facial.

Se nos detivermos um pouco enquanto estivermos à espera do autocarro e ousarmos observar a face dos muitos que por nós vão passando, uns mais apressados e outros mais pausados, podemos captar as mais variadas emoções e porventura, se formos mesmo atrevidos, tentar adivinhar como foi o seu dia. É um exercício de empatia que nos poderá ajudar a lidar com o turbilhão de emoções a que estamos expostos todos os dias e em todas as frentes: é a nossa vida, são os telejornais, a rádio e a vida dos outros que é a também a vida de todos. Estamos sempre de cara posta desde o momento em que acordamos para a vida até ao momento em que dela nos despedimos, não temos hipótese nem alternativa e o que fazemos com ela nem sempre é opção nossa. Já todos tivemos aqueles momentos em que acabámos de falar com alguém e ficámos a pensar se traçamos as mesmas linhas no rosto que as que corriam no nosso pensamento, se tínhamos deixado transparecer o aborrecimento com que escutávamos as palavras de quem nos falava.

Aborrece-me a pretensa de banalidade a que muitas vezes remetem a imagem com que acompanhamos o que dizemos. Afinal, existem coisas que ficam mais fáceis ou difíceis de compreender dependendo da sua ilustração. Ora, exemplo disso, um pouco esticado, é a da clássica falácia magiter dixet no que respeita a malfeitores, ou seja, se alguém nos disser que foi alvo de um roubo por parte de um senhor vestido de fraque e perfumado é menos atendível do que se se disser que o autor havia sido um pirata de um só olho e cicatriz na cara. É, portanto, um jogo complicado este de avaliar caras tendo em conta que muitas das coisas mais odiosas jamais levadas a cabo o foram com um sorriso na cara. Quando alguém de quem não gostamos, ou da qual sabemos simplesmente que não vem grande coisa nos diz o que não queremos ouvir, mas com um sorriso afável dificulta-nos a reacção e a vontade de contrapor e contradizer. É normal sermos enganados por quem nos sorri e a esses é mais difícil fazer cara feia, aliás, atrever-me-ia a dizer que é bem mais frequente sermos enganados, prejudicados e maltratados por aqueles que nos sorriem do que pelos que se nos apresentam de cara feia, até porque desses já estamos à espera.

O mundo de hoje é, em grande parte, uma cara que nos sorri como forma de nos tranquilizar perante todas as circunstâncias e contextos e com o intuito de nos levar a crer de que está tudo bem, de que tudo irá correr bem. O logro apresenta-se perante nós de cara lavada e contente, pisca-nos o olho como quem diz para irmos em frente sem pudor e sem receios, assim, mesmo sabendo que o mundo não caminha para bom porto vamos deixando que nos venda as suas ideias porque a uma cara que sorri é mais difícil fazer cara feia.

É difícil contrariarmos esta ideia que nos é quase inata de acreditarmos nos bons senhores vestidos de fato, sábios e bem-falantes que com um sorriso no rosto nos vão levando no engodo das inevitabilidades e dos caminhos já trilhados vezes sem conta sem que alguma vez tivessem levado alguém à sua realização plena e natural. Por vezes é mesmo preciso fazer cara feia, mesmo quando nos tentam vender o gato e a lebre recebendo o preço sem entregar qualquer mercadoria. Nem tudo o que sorri é bom augúrio.

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