Gerir ou liderar a mudança

A união entre os professores produziu um verdadeiro trabalho de equipa, permitindo criar verdadeiras lideranças neste processo, que mostraram ser a chave para o desenvolvimento continuado desta mudança que está em marcha.

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"A autonomia e a responsabilidade dos alunos evoluíram de forma significativa" PAULO PIMENTA

Ao pensar nesta situação de mudança inevitável do paradigma educativo, vem-me à memória os ensinamentos de John Kotter sobre as questões relacionadas com a mudança. Já tivemos um vislumbre do que se pensa para o arranque do novo ano lectivo, com alguma incerteza e com horizontes largos no pensamento, no que diz respeito à organização e implementação de uma nova rotina que mantém ancorados alunos, professores e pais.

O certo é que andamos todos com o sentido de urgência mais do que desperto para a possível nova realidade de ensino híbrido ou b-learning, conforme lhe queiram chamar. Tal como aconteceu noutras áreas profissionais, os professores provaram que conseguiram adaptar-se à nova realidade, aumentando de forma muito visível o nível de proficiência tecnológica e digital. Perceberam quais são os canais por onde comunicam com mais segurança e fiabilidade. Descobriram o tipo de recursos que permitem uma melhor interacção com os alunos. Coleccionam de várias maneiras as evidências de consolidação e evolução nas aprendizagens, sejam estas formais e incluídas nas aprendizagens essenciais, ou informais, do saber de experiência feito, da vida de todos os dias.

Os dias de trabalho em casa revelaram-se mais produtivos do que qualquer acção de formação e provou-se que a aprendizagem por necessidade e a colaboração interpares são ferramentas muito fortes de empoderamento do conhecimento. A união entre os professores produziu um verdadeiro trabalho de equipa, permitindo criar verdadeiras lideranças neste processo, que mostraram ser a chave para o desenvolvimento continuado desta mudança que está em marcha. Todas as ideias novas foram bem acolhidas, questionadas, reflectidas, experimentadas e adoptadas ou simplesmente eliminadas, aquelas que provaram não ser as melhores. Mas nunca descartadas à partida.

O pensar fora da caixa, em tempos diferentes, resulta num contributo eficiente para fazer face a novas normalidades. De pequenas conquistas e sucessos, falhanços redondos, aprendizagens por tentativa e erro, humildade e muita disponibilidade e abertura para aprender e fazer melhor, se fez e faz este tempo, na vida dos docentes em que tudo é novo e se reinventa dia-a-dia. Esta é mais uma reforma educativa que se vive, por estes dias, sem aviso prévio, nem filosofia de base. Um simples pensamento guia os professores: fazer o melhor e mais adequado para cada criança e para a sua aprendizagem.

E assim se está criando um novo sistema cultural na educação. E quando se fala de educação, não podemos esquecer que trazemos atrás um modo de funcionar da sociedade. Modo de funcionar este que se concretiza na presença dos pais em casa, ou de pelo menos um deles, na maior parte das vezes em teletrabalho, tal como os professores. O tempo é mais solto e flexível. A autonomia e a responsabilidade dos alunos evoluíram de forma significativa.

Com a porta da sala de aula escancarada, o desempenho de todos os intervenientes estava em cima da mesa, quer fossem adultos ou crianças. A maioria dos pais a querer mostrar ser os melhores pais do mundo, os professores a trabalharem desenfreadamente para serem aquilo que se espera de um mestre, e os alunos tentando colar as imagens que pais e professores tinham deles e do seu desempenho. Com mais ou menos oscilações, todos queriam que acontecesse o melhor: a efectiva aprendizagem dos alunos.

Todas estas aprendizagens, mais significativas e conscientes para uns do que para outros, não irão ser deitadas fora no próximo ano lectivo, nem que seja de forma inconsciente e por isso não intencional. Toda a evolução profissional dos docentes, a autonomia e a responsabilidade dos alunos, e o acompanhamento dos pais, que perceberam que não são professores, são um contributo muito valiosos para a nova cultura do sistema educativo. Mais robusto, porque mostrou ser capaz de enfrentar diversidades e de se reinventar, ir confirmando as melhores opções e apropriando-se de novos procedimentos. Mais robusto porque contou com a colaboração dos diversos intervenientes: alunos, professores e pais. Mais robusto pois está a resultar de um verdadeiro trabalho de equipa, com clareza e efectiva equidade, tanto quanto seja possível. Mais robusto pois mais preparado para futuras adversidades.

A incerteza de como será o novo ano deixa-nos abertos a novas possibilidades, sabendo que o que aprendemos este ano, por necessidade, foi importante para o que pode estar para vir. Mas o que foi mesmo importante foi a evidência da capacidade de liderar a mudança.