Covid-19: medidas “anticontágio” salvaram 3,1 milhões de vidas na Europa, conclui estudo

Dois artigos publicados esta segunda-feira na revista Nature apresentam uma visão do efeito em vários países das medidas não farmacêuticas, como bloqueios e restrições. Portugal não foi incluído em nenhuma das análises.

Foto
Carl Recine/Reuters

São dois estudos com o mesmo alvo. Por um lado, uma equipa de cientistas analisou os efeitos das chamadas “políticas anticontágio” em seis países (China, Coreia do Sul, Itália, Irão, França e EUA), concluindo que as medidas para abrandar a infecção por SARS-CoV-2 terão evitado (ou, pelo menos, atrasado) 62 milhões de casos de covid-19. Num outro trabalho, os investigadores olharam para 11 países europeus e usaram os dados sobre os óbitos para inferir mudanças no curso da epidemia como resultado de intervenções não farmacêuticas. Neste caso, a equipa concluiu que os “travões” colocados pelos governos salvaram 3,1 milhões de vidas. Nenhum dos estudos teve Portugal em conta.

Os autores falam na análise dos efeitos de políticas anticontágio em larga escala, dando como exemplo o encerramento de fronteiras, restrições de viagens, distanciamento social, fecho de escolas e empresas, que foram decididos por vários governos para abrandar a taxa de infecções por SARS-CoV-2.

Na investigação que incluiu seis países de vários pontos do globo, os cientistas apoiaram-se em modelos matemáticos e ferramentas estatísticas para determinar os benefícios para a saúde pública das políticas colocadas em prática. Concluíram que as intervenções podem ter impedido ou adiado cerca de 62 milhões de casos de covid-19, o que, adiantam, corresponde a uma estimativa de um total de cerca de 530 milhões de infecções (contabilizando desta forma os casos assintomáticos e não confirmados). Confirmado em todo o mundo há hoje mais de sete milhões de casos, segundo dados da Universidade Johns Hopkins, EUA.

O estudo, coordenado por Solomon Hsiang, da Universidade de Berkeley, nos EUA, cruzou os dados diários das novas infecções com o cronograma das decisões tomadas até 6 de Abril na China, Coreia do Sul, Itália, Irão, França e Estados Unidos. A ideia era olhar para o crescimento da infecção antes e depois da tomada de determinadas decisões. A análise abrangeu o escrutínio de um total de mais de 1700 políticas locais, regionais e nacionais. “Concluíram que, sem políticas anticontágio, as taxas de infecção por SARS-CoV-2 cresceram 68% por dia no Irão e a uma média de 38% por dia nos outros cinco países”, refere um resumo sobre os resultados do trabalho.

Na outra análise publicada também esta segunda-feira na Nature, os cientistas apresentam estimativas da redução dos níveis de transmissão do SARS-CoV-2 após “bloqueios em larga escala e outras intervenções não farmacêuticas na Europa”. Aqui, apresentam-se os dados combinados de 11 países até o início de Maio de 2020, salvaguardando o facto de existirem várias abordagens diferentes nos países estudados. O trabalho, liderado pela equipa formada no Imperial College de Londres para tratar o problema de saúde da covid-19, estabelece que as principais medidas de controlo (encerramento de escolas e fronteiras) foram, de uma forma geral, tomadas entre os dias 2 e 29 de Março.

“Medir a eficácia dessas intervenções é importante, assumindo os seus impactos económicos e sociais, e pode indicar qual é o melhor caminho para manter o controlo”, refere o resumo da investigação. Neste caso, os autores admitem que as estimativas do número de reprodução (o número médio de infecções que uma pessoa infectada pode causar) são relativamente frágeis, porque existe sempre uma grande proporção de casos que não são detectados.

Assim, este estudo oferece como alternativa o acompanhamento do rasto do registo das mortes, admitindo que estas informações também possam estar sujeitas a subnotificações ou informações incorrectas. No entanto, sustentam, os dados sobre os óbitos “são considerados mais fiáveis do que os dados de casos e também podem ser úteis para estimar o número de casos não relatados”.

Na análise do Imperial College, os cientistas debruçam-se sobre 11 países europeus – Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido – e sobre os dados registados até 4 de Maio. Até essa data “entre 12 e 15 milhões de pessoas nos 11 países terão sido infectadas com SARS-CoV -2 (3,2% a 4% da população, com grandes variações de país para país)”, notam no artigo. “Ao comparar o número de mortes observadas com as previstas pelo modelo na ausência de intervenções, os autores sugerem que aproximadamente 3,1 milhões de mortes foram evitadas devido a medidas não farmacêuticas”, refere o resumo, que adianta ainda que os investigadores “calculam que o número de reprodução caiu para menos de 1 como resultado das intervenções, diminuindo em média 82%”.

Foto
Restrições nas viagens e aeroportos fechados foram algumas das medidas aplicadas em vários países REUTERS/Brendan McDermid

O impacto das medidas, insistem os especialistas, varia consideravelmente de país para país. Na realidade, os autores admitem mesmo que uma das limitações do modelo usado é que ele pressupõe que cada medida tenha o mesmo efeito em todos os países. Mas, ainda assim, concluem que “o bloqueio tem um efeito substancial na redução do número reprodução abaixo de 1 e ajudou a conter a disseminação da covid-19 a partir do início de Maio”.

Os dados levam a concluir que sem intervenções, como o fecho de fronteiras, distanciamento social e encerramento de escolas, o número de mortes por covid-19 teria sido muito mais elevado. “A taxa de transmissão diminuiu de níveis altos para níveis sob controlo em todos os países europeus que estudámos. A nossa análise também sugere que houve muito mais infecções nesses países europeus do que o estimado anteriormente. Agora, é importante uma atenção especial para as medidas de continuidade que são necessárias para manter a transmissão do SARS-CoV-2 sob controlo”, refere Samir Bhatt, investigador no Imperial College de Londres e que também assina o trabalho. Seth Flaxman, investigador no Departamento de Matemática do Imperial College e outro dos autores do estudo, conclui: “Fica claro para nós que as intervenções não farmacêuticas, salvaram cerca de 3,1 milhões de vidas nesses países.”