Opinião

Junta de Salvação Educativa

A técnica é essa: fingir que o sistema funciona por orientações da tutela e manter um clima de confiança incontestável, não importa se preso por precários fios. O contrário seria admitir que o ministério e respectivo ministro são dispensáveis. É uma chatice quando a máquina funciona sem amos.

O panorama escolar tem vivido de expedientes mais ou menos bem-sucedidos, que, em todo o caso, não passam de manifestações compensatórias daquilo que jamais poderá ser substituído: o formato tradicional e, salvo melhor opinião, mais adequado a estabelecer, com clareza e sem artifícios superficiais e de sofisticação ilusória, a relação entre professores e alunos em sala de aula.

Até agora, o Ministério da Educação tem contado – e por isso tece constantes loas às pequenas vitórias de algumas dezenas de milhares de professores que, por esse país fora, fazem uso de métodos de ensino sem qualquer lógica de uniformização e com boa dose de improvisação – com o importante contributo dos profissionais de Educação, limitando-se a gerir a situação com a habitual inclinação jubilosa para o “vamos ver o que isto dá, desde que se obedeça ao calendário”. Aliás, o estabelecimento de um calendário, a nova telescola, uma portaria a definir as regras e procedimentos de operacionalização do currículo e regime de frequência, além da determinação de regras para aulas presenciais no secundário resumem a acção ministerial. O resto equivale a um sonoro “cumpram” (ou “cumpri”), seguindo a lógica do controlo. Quando o poder instituído fica de mãos vazias, necessita de se socorrer de um ambiente de autoridade. A técnica é essa: fingir que o sistema funciona por orientações da tutela e manter um clima de confiança incontestável, não importa se preso por precários fios. O contrário seria admitir que o ministério e respectivo ministro são dispensáveis. É uma chatice quando a máquina funciona sem amos.

Outra questão que esta nova realidade pôs a nu tem que ver com os currículos e conteúdos programáticos. Como o tempo urge, no caso dos exames, e por condicionalismos inerentes ao ensino à distância, os professores tendem a seleccionar aquilo que realmente importa (ou crêem importar) – e aqui já nem me refiro ao chavão das “aprendizagens significativas”. Ressalta à vista, no caso do ensino da gramática de Português, o facto de parte significativa desses conteúdos programáticos não servir para nada (serviu interesses de filólogos das academias) e o aluno conviver bem sem eles. Recorde-se que muitos desses conteúdos surgiram, no campo do ensino do Português, sob a designação de TLEBS, com rejeição quase imediata, mas ressuscitados sob a designação encapotada de Dicionário Terminológico (a vigorar actualmente). Há sempre maneiras de o poder contornar as dificuldades e reduzir os seus filhos simpáticos (a classe docente) a uma massa vilipendiada.

Em anos anteriores, ouvimos demasiadas vezes a lengalenga do dever da escola em preparar “os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem”. Este beatífico princípio fundador, inaugurador de uma nova era educativa plena de modismos pomposos, encheu a boca a inúmeros oradores, em decalque cacofónico verdadeiramente penoso. É evidente que à escola não cabe a arte divinatória. Pode preparar jovens para o presente e para o futuro, mas não se lhe pode exigir a formação de profetas. Quem esperaria que nos caísse em cima a actual pandemia? E que nos reserva o futuro, para lá de outras crises pandémicas, conflitos bélicos à escala mundial, ou mesmo “problemas que ainda se desconhecem”, seja lá o que isso for?

O mesmo panfleto normativo que há dois anos o ME produziu, para além de estimular o estranho fenómeno do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, preconizava essa mistificação da escola inclusiva (“promotora de melhores aprendizagens para todos os alunos”), reduzindo a Escola a uma unidade supra-social, desapossada do seu espaço comunitário, onde se produziria agora o verdadeiro milagre da igualdade de oportunidades. Ora, a covid-19 chegou e destapou o véu da impostura, expondo as debilidades sociais e a desigualdade de oportunidades dos alunos (notória entre alunos de um mesmo estabelecimento escolar ou na disparidade entre estabelecimentos escolares de elite e os outros – e aproveito para denunciar o facto de faculdades do ensino público terem usado como critério de avaliação a participação de alunos, sem terem tido em conta a dificuldade técnica de acesso às aulas), porque a verdadeira desigualdade foi e sempre será a social. Em suma, a pandemia expropriou os decisores ministeriais da palavra e do seu crédito.

Li alguns artigos de circunstância sobre o contexto educativo cujo tom optimista, associado à imbecilidade das “oportunidades” agora criadas, me criaram verdadeiros pruridos. A minha realidade, entretanto, é esta: lecciono de forma presencial, mascarado (ou não fosse eu professor), perante uma assembleia de mascarados, e faço-o à distância, através de plataformas. Neste último caso, sinto que falo para as paredes, pois é raro ver – há meses que os não vejo – o rosto de um aluno (eles estão sempre escudados pelo direito à imagem e protecção da privacidade), subsistindo os laços impessoais e incógnitos desta nova dinâmica pedagógica. Isto para dizer que estou finalmente de acordo com o sr. secretário de Estado Adjunto e da Educação: a solução de ensino à distância é um remendo. Por isso, seria preferível que se evitasse a pompa legislativa que se anuncia para o ano, apinhada de arrogância normativa e propensa à extensão dos remendos. Certo, certo, como dizia o outro, só os impostos e a morte.