Que Educação para o século XXI?

Uma “comunidade de aprendizagem” adaptada ao século XXI tem exigências complexas a vários níveis que vão para além das alterações cosméticas das “salas do futuro”.

Um ensino para o século XXI, com recurso às novas tecnologias digitais de um modo que ultrapasse a mera substituição das ferramentas analógicas, avançando para a modificação e redefinição das metodologias tradicionais de ensino e do processo de aprendizagem pelos alunos, é algo muito diverso do que têm sido as práticas de “ensino à distância” dos últimos meses. E não se trata apenas do que nas últimas décadas foi muito apresentado como a necessidade da “construção do conhecimento” pelos alunos, com o papel do professor a ser reduzido ao de “facilitador”, mas sim de avançar para a “partilha do conhecimento” e para a criação de “comunidades de aprendizagem”, em que o essencial passa pela motivação para ir em busca de novos saberes, através de uma rede de interacções, em que o professor tem o papel de preparar um vasto conjunto de materiais e indicações que os alunos devem consultar e aprofundar em ambientes que se deslocam em grande parte para o mundo digital.

Como se distingue isto na prática? Como é que o uso das novas ferramentas passa da fase da substituição para a da modificação? Será que as políticas mais recentes não entraram já neste caminho, com as práticas associadas à “flexibilidade” e “autonomia”? Ou com os princípios enunciados no chamado “Perfil do Aluno”? Nem por isso, se as práticas continuarem a ser réplicas, com esta ou aquela variante, do velho modelo e das velhas concepções. Porque o uso de um quadro interactivo com uma apresentação muito dinâmica numa sala de aula, solicitando uma participação activa dos alunos na sua exploração, ainda está na fase de amplificação ou melhoria dos processos já conhecidos. Melhora-os, adiciona-lhes algumas funcionalidades, não os transforma.

Essa transformação tem exigências complexas a vários níveis que vão para além das alterações cosméticas das “salas do futuro” que nos têm sido apresentadas, ainda a um nível muito incipiente. Não é a forma das cadeiras, a cor das mesas ou a presença de tablets e smartphones que redefine um ambiente de aprendizagem, mesmo se indiscutivelmente o melhora. Nem se os alunos estão em pares, sozinhos ou em pequenos grupos. Uma aula síncrona por videoconferência não modifica o modelo tradicional de aula, apenas lhe acrescenta uma mediação tecnológica.

Uma “comunidade de aprendizagem” adaptada ao século XXI assenta na possibilidade de estabelecer, a qualquer momento, interacções entre o professor e os alunos e entre estes. Que podem acontecer num tempo e espaço que quebraram as barreiras da sincronia e da presença física, mesmo se podem manter momentos presenciais, em especial no lançamento das sequências de aprendizagem. Esta redefinição implica que o tempo da aprendizagem é balizado pelo professor, mas pode ser gerido pelos alunos de acordo com os seus ritmos; assim como permite que o espaço seja multiplicado de acordo com as possibilidades e condições dos alunos.

As salas de aula físicas tornam-se pontos de referência, mas não de presença obrigatória de acordo com uma grelha rígida. Devem existir para que os alunos possam esclarecer alguns aspectos das tarefas a realizar, mas o espaço para o desenvolvimento ou apropriação de novos conhecimentos é virtual e pode ser acedido a partir da escola, de casa, de uma biblioteca. No espaço virtual, as interacções e partilhas podem acontecer de forma síncrona ou assíncrona. Mais do que uma “turma”, existe uma “comunidade”. A avaliação resulta da combinação entre o cumprimento de tarefas, com classificação automática, e a apreciação de outras pelos pares e/ou pelos professores. E formaliza-se quando o aluno completa as tarefas e não no mesmo momento para todos.

O que tem grandes exigências em vários planos, de que identifico apenas os mais evidentes:

  • Os alunos devem ter gosto pela aquisição do conhecimento, um grau de responsabilidade elevado e hábitos de autodisciplina e autoregulação. E significa que a implementação desta metodologia difere muito com a idade e nível de escolaridade dos alunos.
  • Os professores devem ter uma formação muito sólida não apenas no recurso às ferramentas digitais, mas de igual modo nas suas áreas de conhecimento, porque só assim poderão assegurar a sua função de orientação, regulação e aferição do trabalho das comunidades de aprendizagem que coordenam.
  • Quanto aos meios, exige que escolas, alunos e professores tenham acesso permanente a equipamentos e ferramentas num plano de relativa igualdade, para que esteja garantida a equidade de oportunidades. Só depois disso podemos falar numa Educação adequada aos novos tempos.