Demitem-se 57 polícias em apoio dos que foram suspensos por agredirem manifestante de 75 anos

Um vídeo da acção da polícia de Buffalo, no estado de Nova Iorque, gerou indignação.

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Martin Gugino no chão, depois de ter sido empurrado pela polícia de Buffalo Reuters/JAMIE QUINN

Não gostaram de ver dois dos seus colegas suspensos por terem empurrado um manifestante de 75 anos para o chão, causando-lhe ferimentos graves, e 57 agentes da equipa de resposta especial da polícia de Buffalo, no estado de Nova Iorque (EUA), demitiram-se. Vão continuar a exercer a profissão fora da equipa responsável por responder a protestos. 

“Demitiram-se 57 [polícias] em protesto contra o tratamento a esses dois membros da força, que simplesmente estavam a executar ordens”, disse à rádio WGRZ John Evans, presidente da Buffalo Police Benevolent Association. 

O protesto não foi bem recebido pelo responsável executivo do Condado de Erie, Mark Poloncarz, ao dizer, numa conferência de imprensa na sexta-feira, estar “excepcionalmente desapontando” com as demissões. “Indicam que não vêem nada de errado nas acções de ontem [quinta-feira] à noite, o que acho que todos nesta sala vêem, bem como o nosso governador, o presidente de câmara e milhões de pessoas por todo o país – e, ao que interessa, o mundo”, disse Poloncarz. 

Em causa está um vídeo em que se vêem dois polícias a empurrar sem motivo um manifestante de 75 anos para o chão quando este tentava falar com os agentes. O manifestante, entretanto identificado como Martin Gugino, caiu no chão e bateu com a cabeça, ficando inanimado e a sangrar da nuca. Uma dezena de agentes da polícia de choque continuam a avançar na rua sem, num primeiro momento, acudirem ao manifestante. Gugino foi transportado para o hospital e encontra-se em situação clínica “estável”. 

Num primeiro comunicado, a polícia de Buffalo alegou que o manifestante tinha caído na sequência de uma escaramuça entre polícias e manifestantes, mas as imagens divulgadas deitaram essa narrativa por terra e ampliaram as críticas à actuação das autoridades. E levantaram novas dúvidas sobre quantos casos semelhantes poderão ter acontecido nos últimos dias, se a polícia terá mentido. 

As imagens tornaram-se virais nas redes sociais e foram apresentadas como mais um exemplo da violência policial contra a qual se levantam os protestos anti-racistas nos Estados Unidos dos últimos dias. Muitas das manifestações têm sido pacíficas e apenas se tornam violentas depois de intervenções musculadas das autoridades, acusam os manifestantes.

Mais de 80% dos jornalistas vítimas de ataques foram-no por agentes da autoridades, contabilizou o site Intercept, e vídeos de violência policial tornaram-se comuns nas redes sociais – há um em que se vê um polícia a disparar uma granada de gás contra um manifestante a menos de um metro, acabando por fazer ricochete, por exemplo. 

Na sequência do coro de protestos sobre as acções dos dois agentes, foi aberta uma investigação para apurar os factos e responsabilidades. Os dois polícias foram suspensos sem direito a vencimento até à sua conclusão. 

“Não estou a pedir que sejam demitidos”, disse o presidente de câmara de Buffalo, Byron Brown. “Foi pedido várias vezes ao homem que saísse do local”, continuou o governador, acrescentando que a polícia sentiu que era importante esvaziar a zona antes que os confrontos com os manifestantes começassem.

“Acho que o agente que empurrou o indivíduo se apercebeu de que estava gravemente ferido e pareceu que se ia aproximar para o ajudar. E aí o seu superior empurrou-o para continuar a avançar”, justificou Byron Brown.

O governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, usou palavras mais duras e chegou inclusive a dizer que os agentes “deveriam ser despedidos”. “Quando vi o vídeo, fiquei doente do estômago. Acho que o procurador distrital deve olhar para a situação para possíveis acusações criminais”, disse. 

“Os agentes não podem continuar a esconder-se por trás da mentira de que estão a proteger e a servir”, disse em comunicado a União de Liberdades Civis de Nova Iorque, citado pelo Washington Post. “Os líderes das cidades precisam de acordar e de lidar seriamente com a violência policial nos protestos desta semana e com a cultura de impunidade que levou a este incidente. Não há lugar para que polícias militarizados forcem o recolher obrigatório usando violência contra as pessoas que deveriam proteger”.