Projecto #garanteolugar quer pôr marcas a pagarem os bilhetes vazios nas salas de espectáculos

Ideia passa por empresas assinarem um “contrato de apoio”, pagando a metade vazia dos lugares nos espectáculos. Criadoras acreditam que medida pode ajudar à sustentabilidade de equipamentos culturais e trabalhadores das artes.

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Restrições com que espaços culturais reabrem as portas trazem consigo perda significativa de rendimentos LUSA/CIRO FUSCO

O cenário é um pesadelo para os trabalhadores das artes: movimentos e guiões ensaiados exaustivamente, guarda-roupa em perfeitas condições, luzes trabalhadas até ao último pormenor, o arrepiante levantar do pano e a actuação de uma vida… Para uma plateia semi-vazia. É o fantasma que atormenta artistas e técnicos neste desconfinamento que começa a deixar abrir os diferentes equipamentos culturais do país. Conscientes de que, nas actuais configurações, está em risco a sustentabilidade dos espaços de espectáculos e das pessoas que os fazem, Raquel Pinhão e Teresa Pinheiro criaram a iniciativa #garanteolugar, através da qual propõem que empresas e marcas assinem “contratos de apoio” com as salas, adquirindo os lugares que, fruto das novas regras de lotação, ficarão vazios.

“Mais do que nunca, o conceito de ‘lotação esgotada’ é fundamental”, começa por explicar Raquel ao PÚBLICO. Afinal de contas, avança, se as variadas casas de programação artística do país não têm alternativa senão funcionar a meio gás, não há como escapar ao “impacto brutal na bilheteira” que surge como consequência directa — e que, fazem questão de destacar as fundadoras no site do projecto, “pode significar o cancelamento de eventos ou mesmo o seu encerramento”. “Se conseguimos garantir a lotação cheia, a sala consegue garantir a continuidade da sua programação”, esclarece. “Isso significa que os artistas e técnicos conseguem fazer o espectáculo, e isso significa que são pagos.”

Ou seja: as casas vendem metade dos ingressos aos espectadores, ao passo que a marca interessada em formalizar um contrato de apoio dá um contributo, pagando o valor correspondente à outra metade. O benefício para os espaços é inegável nesta situação, que lhes atira um bote salva-vidas em alto mar. Qual é o lucro para a empresa que se junta à equação? O que pode ganhar com a compra de lugares que o novo coronavírus não deixa ocupar? “Como qualquer parceria ou patrocínio, a balança tem de ser equilibrada para os dois lados”, salienta Raquel Pinhão, mestre em Estudos de Cultura pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. “Isto é um investimento, não uma caridade. Apoiando as instituições culturais, a marca está a trabalhar na sua imagem e na construção de valor junto dos seus clientes e consumidores”, sustenta. “É uma troca justa”, uma espécie de you scratch my back, I’ll scratch yours.

As criadoras desta proposta, que elaboraram uma lista de possíveis vantagens para as duas partes envolvidas no processo de entreajuda, sugerem que as empresas poderão, por exemplo, incluir o seu logótipo em “materiais de comunicação e nas plataformas digitais da sala” e, no futuro, utilizar “parte do número de bilhetes comprados para oferta em acções de promoção, incentivo de vendas” ou convites. As salas de espectáculos, por sua vez, assegura Raquel, não sofrerão qualquer tipo de interferência “no seu papel de curadoria”.

Os valores e a duração dos contratos dependerão das negociações entre os diversos intervenientes, mas as responsáveis — que, fundamentalmente, desempenharão a função de intermediárias — têm modelos pensados e desenhados. Para já, um acordo de “pelo menos um mês” corresponde ao mínimo de tempo “que faz sentido para lançarmos uma base”, afirmam. “Não gostávamos que as marcas apoiassem apresentações isoladas e distantes umas das outras. Queremos que apoiem a sala, não que paguem um espectáculo”, conta Raquel.

A tabela de preços também já está rascunhada. A porta-voz da iniciativa exemplifica: “Imagine-se que uma empresa vai comprar 100 lugares de um determinado auditório e que o preço médio de cada ingresso, com base naquelas que são as sessões habituais do espaço, ronda os dez euros. São 1000 euros por performance. Se aquele auditório vai acolher três actuações num mês, a contribuição deverá rondar os 3000 euros.” Claro que há sempre flexibilidade para “definir quaisquer cláusulas”, aumentando ou baixando os custos teóricos, e as marcas “podem ‘patrocinar’ as casas durante quatro ou cinco meses se estiverem dispostas a investir desse modo”.

Com o avançar do projecto, que arrancou esta segunda-feira, as responsáveis criarão, no site, dois separadores com a lista completa das salas e empresas “que ainda estão disponíveis para colaboração e as que já têm contratos assinados”. Quem quiser fazer parte desta rede de colaborações precisa apenas de enviar um briefing às fundadoras. “Uma instituição com uma programação infantil pode preferir um certo tipo de marca. Ao mesmo tempo, uma marca, pelo seu posicionamento, poderá privilegiar um espaço numa determinada região do país. Mandem a vossa carta ao Pai Natal, digam-nos o que gostavam de ter”, brinca Raquel Pinhão.

Enquanto “ideia para o agora”, o #garanteolugar quer também “alimentar potencial” para que possa “fazer sentido no futuro”. Daí o “talvez ambicioso” objectivo que Raquel e Teresa têm de “ajudar a criar outra visão da cultura para as marcas”. “Tendencialmente, o mundo dos artistas costuma olhar para o dos negócios com alguma desconfiança”, apontam. “Se calhar, podemos chegar à conclusão de que, afinal, há uma relação frutífera que pode ser estabelecida”, com ganhos para as duas pontas do espectro.

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