MIGUEL MANSO
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MIGUEL MANSO

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E agora, já estamos prontos para ter esta conversa?

Não esperemos um futuro em que a SpaceX consiga transportar os mais afortunados para uma colónia marciana, enquanto os restantes agonizam aqui, num mundo estragado. Tentemos manter este.

A actual pandemia fez-nos recordar a óbvia, mas negligenciada, constatação de que não somos uma comunidade global de super-heróis resistentes a todas as ocorrências registadas no meio que nos rodeia, com um germe, não especialmente mortal, a ser capaz de criar uma crise planetária, quebrando as nossas rotinas inatacáveis. Não desprezando a resposta complexa que a covid-19 exige, devemos pensar como será a actuação caótica à crise ambiental esperada, quando a disponibilidade de água potável reduzir drasticamente em vários pontos do globo, o clima colocar em causa as nossas hortas mundiais e iniciarem migrações em massa para os oásis restantes do planeta, subitamente tão pequeno para albergar tanta gente.

Os avisos da comunidade científica têm sido cada vez mais apocalípticos. Por mais reciclagem que façamos e água que poupemos, estas práticas sustentáveis individuais são insuficientes e, quando tratadas como sendo a solução fundamental, ocultam o problema central, que é continuarmos aprisionados a um modelo de desenvolvimento global reconhecidamente insustentável, assente num desequilíbrio de forças entre Estados ricos e Estados pobres. Este não impediu a poluição, atribuiu aos primeiros o direito exclusivo de poluir em troca de esmolas aos segundos, nunca suficientes para equilibrar o tabuleiro do desenvolvimento à escala planetária.

As respostas ensaiadas até aqui não alteraram o paradigma existente, reforçaram-no. Exemplo claro é a solução dos mercados de compra e venda de emissões de carbono, que adensam o poder dos países desenvolvidos e perpetuam o subdesenvolvimento dos países mais pobres. Também a tutela dos direitos de propriedade industrial, com o acordo TRIPs (Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, em português), adensou a dependência dos países pobres por formas de produção arcaicas e, consequentemente, menos eficientes e mais poluentes. A força do modelo desequilibrado imperou na negociação internacional e quem perdeu, uma vez mais, fomos todos. Por mais reciclagem que façamos e água que poupemos – sendo comportamentos civicamente notáveis, afirme-se – tal não será suficiente para anular o impacto do subdesenvolvimento perpétuo a que estes países foram remetidos.

Entendamo-nos: os países desenvolvidos não estão sozinhos no mundo. Na penumbra do globo ignorado, existem milhões de indivíduos a desesperar por solidariedade. Caso não a tenham, seremos também nós a desesperar no futuro, porque, se ainda não notámos, o ar que respiramos é o mesmo, o mar que nos circunda é o mesmo, os recursos que permitem a sobrevivência são os mesmos, a Terra é a mesma.

Não esperemos um futuro em que a SpaceX consiga transportar os mais afortunados para uma colónia marciana, enquanto os restantes agonizam aqui, num mundo estragado. Tentemos manter este. Para isso, é necessário colocar, finalmente, em xeque o modelo esgotado que nos regula e definir como prioritário o equilíbrio e igualdade entre os Estados. Esta transformação só será viável com a solidariedade dos países ricos espelhada na reforma estrutural de organizações internacionais, como a ONU e a OMC, o que, claramente, depende da consciencialização das populações para a importância de construir uma ordem mundial mais justa e igualitária. Se estes princípios não bastarem, tenha-se, então, em conta a experiência traumática que vivemos actualmente, parcialmente demonstrativa do futuro dantesco que teremos se não actuarmos de forma contundente na origem da problemática.

Assim, pergunto: estamos, de uma vez por todas, prontos para ter esta conversa?

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