Torne-se perito Opinião

Um atlas infantil da covid-19

Um atlas para crianças pode ter vários critérios. Um deles é o insólito. Coisas únicas e inimagináveis que vimos nos primeiros meses de pandemia.

Aqui chegados — com cinco meses de pandemia — já podemos fazer um atlas da covid-19 para crianças.

É bom usar critérios clássicos e fazer mapas com base nas estatísticas da doença organizadas por continente, demografia, religião, clima, classes sociais, regimes políticos, qualidade da democracia, distribuição da riqueza, desenvolvimento, poluição atmosférica, solidariedade dos cidadãos, corrida pela descoberta da vacina.

Mas também podemos usar o insólito como critério. Desde que estamos nisto, já ouvimos e vimos o inimaginável. Uma colecção de mapas que mostra a primeira doença que parou o planeta no século XXI não o pode ignorar.

Proponho um mapa com o critério “governos que fizeram encomendas colossais do chá Covid-Organics por acreditarem que cura a doença”. Lá estariam Madagáscar — que produz o chá feito à base de artemísia — e o Níger, a Tanzânia, a Libéria, o Togo, o Chade e as duas “guinés” da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, a Guiné-Bissau e a Guiné Equatorial. Já serão mais de 20. Ainda agora vi uma fotografia de uma sala de aula malgaxe com os alunos de braço no ar a exibir uma garrafa de chá de artemísia. No futuro, poderemos ter de fazer um mapa sobre como fomos condescendentes em relação aos líderes africanos que acreditaram no chá feito pelo Instituto Malgaxe de Investigação Aplicada. Para já, esperamos pelos testes científicos.

Neste ponto, o atlas podia prosseguir com outros mapas africanos. Num levantamento de “tratamentos” locais para a covid-19, li que, na República Democrática do Congo, um médico tradicional propõe como cura inalar os vapores de uma mistura de manga e casca de árvore, folhas de papaia e uma planta secreta; nos Camarões, um naturopata sugere uma receita semelhante, mas com alho ou gengibre e menta fervidos em água, e um auto-intitulado ervanário congolês sugere beber a própria urina”.

Ou podíamos atravessar o Atlântico e aterrar na Casa Branca, onde o Presidente Donald Trump disse que é bom beber lixívia e enalteceu um médico “milagreiro” com ar de feiticeiro da floresta do Shrek. Este mapa teria a vantagem de dar a ver às crianças o que há em comum entre os charlatões africanos e o Presidente do país mais poderoso do mundo. Era bom incluir também os mitos urbanos comuns: a cocaína curava a covid-19, os gelados eram maus para a covid-19, beber água de 15 em 15 minutos evitava apanhar covid-19. No início da pandemia recebeu mensagens com a tese de “cientistas japoneses” de que ao “bebermos o vírus” ele seria destruído pelos ácidos do estômago?

Em alternativa, podíamos avançar para a Ásia. Que tal um mapa com o critério “países onde só os chefes de família saem de casa”? Que eu saiba, só houve um: a Malásia.

A Malásia é um país original. É uma federação com uma monarquia constitucional; o rei é eleito de cinco em cinco anos num sistema rotativo que percorre as nove famílias reais dos noves estados; o sistema jurídico mistura a common law inglesa, o direito islâmico (sharia) e o direito civil; o actual governo é uma aliança entre o Partido dos Indígenas Unidos, o Partido Islâmico, a Associação dos Chineses Malaios e o Congresso dos Indianos Malaios.

Algures deste caldeirão saiu a lei para o confinamento que estipulou que só os “chefes de família” podiam sair de casa. Resultado: só os homens saíram e só os homens foram às compras. Vale a pena incluir neste atlas da covid-19 fotografias dos supermercados da Malásia cheios de homens agarrados ao telemóvel, incapazes de fazerem as compras sozinhos.

Ainda haveria espaço para um último mapa, talvez o mais desconcertante — e admirável. Um mapa que mostrasse o processo político sueco na pandemia. O governo arriscou fazer diferente de todos, pouco tempo depois admitiu ter um problema grave nos lares de idosos, a seguir, perante protestos, insistiu na imunidade comunitária, e agora admitiu que a estratégia de não confinar foi má. “Transparência política” soa a pouco. Estamos a falar de líderes de um país admitirem a sua falibilidade live, em directo, quando o problema ainda existe. Há com certeza uma palavra melhor. Quem fizer o atlas terá de a procurar.

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