Covid-19 penaliza Novo Banco, que agrava perdas para 179,1 milhões

O banco voltou a registar prejuízos entre Janeiro e Março, sofrendo já as consequências da pandemia de covid-19 nas suas contas. António Ramalho avisa que as perdas vão continuar nos próximos meses.

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LUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

O Novo Banco fechou o primeiro trimestre de 2020 com um resultado negativo de 179,1 milhões de euros, um agravamento face aos 93,1 milhões do período homólogo. Um desempenho que resulta do “impacto negativo dos resultados de operações financeiras, que reflectem a volatilidade do mercado no primeiro trimestre”, mas também do “reforço do provisionamento para crédito influenciado pelos efeitos da pandemia covid-19”.

O banco que sucedeu ao BES dividiu a sua actividade entre a operação normal da instituição (Novo Banco Recorrente) e a gestão do legado do BES (Novo Banco Legado). Mas em nenhuma das duas áreas a instituição conseguiu apresentar resultados positivos.

No Novo Banco Legado foi onde se verificaram já os efeitos da covid-19. Segundo o comunicado divulgado esta sexta-feira ao mercado, o resultado entre Janeiro e Março foi negativo em 75,1 milhões de euros, uma deterioração de 127,8 milhões face ao mesmo trimestre do ano passado. Na origem desta degradação das contas estão não só os resultados de operações financeiras (-110 milhões de euros), mas também o agravamento de imparidades e provisões (+32 milhões).

Estes dois aspectos resultam, segundo explica a equipa liderada por António Ramalho, da pandemia de covid-19, através de três efeitos: agravamento do custo do risco, tendo as imparidades para riscos de crédito sido reforçadas adicionalmente em 69,7 milhões; prejuízos em operações de cobertura de dívida pública no valor de 58,6 milhões; e à desvalorização da carteira de obrigações, com os ganhos não realizados a diminuírem 61 milhões.

Perante este contexto, assume a gestão do Novo Banco, “é esperado que o nível de provisionamento se mantenha elevado nos próximos trimestres”, isto é, que as perdas relacionadas com a pandemia se agravem ao longo do ano.

Mas também no Novo Banco Legado - aquele que tem levado a recorrentes injecções de capitais públicos para manter a instituição à tona - o desempenho não é positivo. Assim, “o resultado foi negativo em 34 milhões, reflexo do esforço efectuado pelo Grupo na redução destes activos”, explica o comunicado do banco, numa referência à venda de carteiras de créditos problemáticos, realizadas com fortes descontos e que geram perdas para esta unidade do banco. 

Este resultado decorre da limpeza do balanço que tem vindo a ser feita desde que a instituição foi vendida ao fundo Lone Star. “O activo do Novo Banco Legacy decresceu 184 milhões (-4,1%) face a Dezembro de 2019, sendo de evidenciar a redução na carteira de crédito líquida em cerca de 127 milhões de euros (-8,7%) e em outros activos no montante de 47 milhões (-2,2%)”. São estas perdas – abrangidas pelo mecanismo de capital contingente acordado com o Governo no momento da venda – que determinarão a injecção de capital relativa a este ano.

Nos últimos três anos, o banco já precisou de accionar este instrumento no valor total de três mil milhões de euros, estando perto de esgotar a almofada de 3,9 mil milhões de que dispõe. Estas injecções chegam através do Fundo de Resolução, controlado pelos bancos que operam em Portugal e cujo financiamento é assegurado com o recurso a empréstimos do Tesouro (para além de contribuições da própria banca). O objectivo deste mecanismo é manter a solidez do banco acima das exigências das autoridades europeias. Mas também aqui a pandemia trouxe alterações, dado que o Banco Central Europeu permitiu aos bancos baixarem destes limites. 

Isso mesmo é explicado pelo Novo Banco: “neste contexto, importa destacar o facto de o Banco Central Europeu (BCE) ter divulgado em 12 Março de 2020 diversas medidas que permitem aos bancos operar temporariamente abaixo do nível de capital exigido”.

No caso do Novo Banco, “a 31 de Março de 2020, o rácio provisório CET1 é de 12,3% e o rácio provisório de solvabilidade total de 13,8%, valores que representam uma redução face aos apurados no final de 2019 devido principalmente à diminuição dos capitais próprios impactados no período pelos efeitos decorrentes da pandemia Covid-19”.

A instituição – que previu já a distribuição de prémios de dois milhões de euros à gestão no final do período de reestruturação – sublinha ainda alguns aspectos positivos da sua actividade. “É de destacar o desempenho positivo da margem financeira (+10,3 milhões de euros; +8,8%) e a estabilidade apresentada pelo comissionamento (-1,3 milhões de euros), que conduziram ao aumento do produto bancário comercial em 4,8% face ao primeiro trimestre de 2019”, destaca o comunicado.