Torne-se perito

“Na música, é a forma de chegar a outros que me interessa, é comunicar”

O cantor guineense Fernando Ferreira lança esta sexta-feira um novo álbum, Mantenhas, celebração de uma carreira que cruza várias artes.

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Fernando Ferreira JOSÉ CARLOS NASCIMENTO

Cantor e actor, Fernando Ferreira correu várias artes: música, teatro, cinema, televisão, dança. E esta sexta-feira lança o seu segundo álbum, Mantenhas, nas lojas e nas plataformas digitais. Um disco que junta várias autorias, a par de três canções só dele: Guto Pires, João Afonso, Amélia Muge, João Ferreira, MC Igreja, Sebastião Antunes, Paulo de Carvalho, Mário Rui Teixeira, Remna Schwarz e um tema do histórico compositor guineense José Carlos Schwarz.

Nascido na Guiné-Bissau, em 29 de Março de 1971, filho de pai cabo-verdiano (da Praia) e mãe guineense (de Bolama), Fernando Ferreira foi com 5 anos para Cabo Verde, quando a família para ali se mudou, e três anos depois para Portugal, para Coimbra. Influenciado pelo pai, cantador de mornas, foi aos poucos descobrindo outros géneros musicais (a música brasileira, o fado, a canção portuguesa), formando por volta dos 15 anos, junto com alguns colegas do secundário, um grupo a que chamaram O Bando. É nessa altura que toma maior contacto com a música de autores como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, José Mário Branco, bem como com as recolhas de Giacometti e Lopes-Graça. Aos 16 anos começa a dizer poesia e depois torna-se actor: faz teatro, cinema, séries de televisão. E estuda canto no Conservatório.

“A música esteve sempre presente”, diz Fernando Ferreira ao PÚBLICO. “Começa em casa, e vai-me acompanhando. É como se fosse o denominador comum de tudo isto. Porque nela estão as palavras, as melodias e as linhas melódicas que elas criam, mas é a forma de chegar a outros que me interessa, do ponto de vista da palavra e da linguagem musical. No fundo é comunicar.”

Prova de generosidade

O primeiro disco, Mestiço (2010), grava-o quando já se sente seguro para isso e o segundo, Mantenhas, surge agora, passados dez anos, com a participação de pessoas com as quais se foi cruzando, ao longo do seu percurso artístico.

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A capa de Mantenhas

“Sim, e com alegres surpresas pelo caminho. Se houvesse uma palavra para definir este CD, seria ‘generosidade’. Por exemplo: eu não conhecia a Amélia Muge pessoalmente, conhecia o trabalho dela, mas gostava e gosto do modo como ela comunica, do seu universo; o Paulo de Carvalho, cruzámo-nos há anos, entretanto tornei-me amigo da Mafalda [Sacchetti, filha dele] e houve mais alguns contactos; com o João Afonso, a mesma coisa. São pessoas que eu sempre fui ‘namorando’ ao longe, mas que nunca pensei ter num alinhamento meu. E tal como me atrevi a escrever canções (porque não me considero nem compositor nem autor, nem tenho essa pretensão), também me atrevi a entrar em contacto com eles. O pior que podia acontecer era dizerem-me que não. E nenhum deles disse.”

A canção que Amélia Muge escreveu para ele foi, por exemplo, fruto de uma tarde de conversa. “Uma tarde que não acabava, porque a Amélia é uma excelente comunicadora e um ser humano muito generoso e sedutor, sabe muitas coisas e não mostra tudo aquilo que sabe. A verdade é que a Amélia Muge leu-me naquela tarde e passado um ou dois meses enviou-me um e-mail com um registo e eu estava lá, estava naquelas palavras.” Título: Trazes tudo o que é preciso.

Sentir, fluir e celebrar

Fernando Ferreira é autor de três dos temas (PeleNha mamé e Pabia), assinando ainda parceria em Afroeurópica (com José Ferreira e MC Igreja) e Nó na bai (com Mário Rui Teixeira e Remna Schwarz). Os restantes são de Guto Pires (I abô ki di mi, que abre e fecha o disco, no final em versão rádio), João Afonso (O coração sem jeito), Sebastião Antunes (Fuso horário), Paulo de Carvalho (O que se leva desta vida), Remna Schwarz (Cada eco di nó terra) e José Carlos Schwarz (o clássico Mindjeris di Pano Pretu).

Enquanto as apresentações ao vivo ainda ressurgem devagar, a juntar ao videoclipe de Pele há a ideia de fazer pelo menos mais dois. “O que está previsto é termos pelo menos três singles, três vídeos. Se percebermos que há espaço para trabalharmos mais temas, essa possibilidade não está fechada.” O título do disco, Mantenhas, é um termo muito usado na Guiné-Bissau e em Cabo Verde como saudação, como cumprimento. E sintetiza o espírito do disco. “Este trabalho não tem grandes pretensões”, diz Fernando Ferreira. “Os únicos critérios foram: os temas têm de falar uns com os outros e isso tem de fazer algum sentido; tem de fluir; e tem de celebrar.”

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