Comandos: “No Exército, pensei que o Dylan estava em boas mãos. Nunca pensei que pudesse morrer”

Os pais de Dylan da Silva disseram em tribunal que a perda do filho foi a perda de cada uma das suas vidas. Agora separados, estão ambos “isolados” e “sem conseguirem trabalhar”. “Tento não ir todos os dias ao cemitério”, diz Lucinda Araújo.

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Lucinda Araújo (à esquerda) da primeira vez que depôs em tribunal, em Outubro de 2018 daniel rocha

A mãe de Dylan da Silva, um dos dois recrutas de 20 anos que morreram de um golpe de calor no curso 127 dos Comandos em Setembro de 2016, contou esta quinta-feira ao tribunal que não queria que o filho fosse para os Comandos.

E reproduziu as palavras exactas de Dylan quando a mãe tentou demovê-lo: “Mãe, eu quando gosto, quero o melhor. E os Comandos é o melhor do Exército.” Esta dedicação que Dylan demonstrava a tudo aquilo de que gostava foi uma das características pessoais relembradas pela mãe.

A advogada que a representa, Joana Boaventura Martins, pediu para descrever o jovem que tinha como paixão o desporto e como projecto de vida o Exército. “Sou um pouco suspeita”, começou por dizer, timidamente. “Para mim, ele era o melhor do mundo.” 

“Ele foi para o Exército e aos pouquinhos foi-nos falando dos Comandos”, continuou Lucinda Araújo, com o mesmo ar frágil com que veio numa primeira vez ao tribunal, em Outubro de 2018, responder como assistente no processo criminal. 

Agora que o processo civil foi junto no processo-crime, Lucinda Araújo e Vítor da Silva voltaram para sustentar os danos sofridos que estão descritos no pedido de indemnização civil. A aparente calma de Lucinda parece esconder o abismo. “Tento não ir todos os dias ao cemitério, mas quando não vou falta-me qualquer coisa”, disse.

Sozinha e sem trabalhar

Desde a morte de Dylan, perdeu 20 quilos, deixou de trabalhar porque não se sente com capacidade física nem psicológica para o fazer; os seus dias são passados em casa sozinha com os animais; é vista por um psiquiatra de seis em seis meses no hospital, medicada e acompanhada também por um psicólogo.

“Pensei que o Dylan se podia magoar, podia ir para o hospital, porque ele me dizia ‘mãe, posso ter uma lesão e ir para o hospital'”, disse. “Mas daí a deixarem-no morrer. Uma coisa é sofrer uma lesão, outra coisa é deixaram-no morrer, e com o Exército eu pensei que ele estava em boas mãos. Nunca pensei que ele pudesse morrer.”

Também ouvido esta quinta-feira, no julgamento de 19 militares, todos Comandos, acusados de crimes de abuso de autoridade por ofensa à integridade física na Prova Zero desse curso, o pai de Dylan, Vítor da Silva confirmou que se sentiu “defraudado”.

“Pensava que havia mais segurança lá dentro”, disse, referindo-se ao Exército. Desde então separados, Vítor da Silva “isolou-se”, entregou-se à bebida, não tem apoio psicológico regular e vive actualmente na garagem do irmão. Não tem trabalho desde que deixou de ter capacidade para trabalhar – um ano depois de perder o filho. Diz que apenas se levanta para comer.

Ainda juntos neste pedido de indemnização civil, exigem o pagamento de 400 mil euros por parte do Estado e dos arguidos acusados que sejam condenados.

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