Na cidade onde a revolta começou, o chefe da polícia ajoelhou-se em homenagem a George Floyd

Cerimónia de homenagem ao afro-americano morto pela polícia em Mineápolis deu início a uma despedida que culmina com o funeral, na segunda-feira. No Partido Republicano, uma senadora fez saber que pode tirar o apoio ao Presidente Trump.

A cerimónia foi reservada a familiares, amigos e alguns convidados
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A cerimónia foi reservada a familiares, amigos e alguns convidados Reuters/LUCAS JACKSON

No dia em que as ruas de Mineápolis fizeram silêncio pela primeira vez em mais de uma semana, por uns momentos, para que os familiares e amigos de George Floyd pudessem chorar a sua morte, surgiram na capital dos Estados Unidos mais sinais de uma fractura nas relações entre o Partido Republicano e o Presidente Trump. Numa declaração tão firme quanto inesperada, a senadora Lisa Murkowski, que há quatro meses ficou ao lado de Trump no processo de impeachment, disse que admite não apoiar o Presidente norte-americano nas eleições de Novembro.

A senadora do Alasca, de 63 anos, veio a público apoiar o antigo secretário da Defesa, o general Jim Mattis, que na quarta-feira acusou o Presidente Trump de “tentar dividir o país”.

“As palavras do general Mattis foram verdadeiras, honestas, necessárias e já deviam ter sido proferidas há mais tempo”, disse Lisa Murkowski esta quinta-feira, abrindo a porta para que mais senadores republicanos falem sobre as suas “preocupações”.

“Penso que estamos a chegar a um ponto em que podemos ser mais honestos com as preocupações que possamos ter dentro de nós, e ter a coragem das nossas próprias convicções para falarmos.” 

Questionada sobre se vai apoiar o Presidente Trump nas eleições de Novembro para um segundo e último mandato, a senadora não deu uma resposta definitiva: “Estou numa luta comigo mesma. Há muito tempo.”

Lisa Murkowski é uma das vozes mais independentes na bancada do Partido Republicano no Senado, e não é a primeira vez que enfrenta Donald Trump.

Em 2016, depois da revelação do vídeo em que Trump se gaba de tentar forçar relações sexuais com mulheres, a senadora do Alasca anunciou que não votaria nele para a Presidência. E no Verão de 2017, quando o Senado travou a promessa do Presidente Trump de pôr fim ao Obamacare, Murkowski foi um dos três “nãos” republicanos que se juntaram aos democratas, com Susan Collins e John McCain.

Mas em Fevereiro, quando o Presidente Trump foi julgado no Senado por abuso de poder e obstrução do Congresso, Murkowski não foi tão longe como o seu colega Mitt Romney – o único republicano a defender a destituição do Presidente norte-americano.

O facto de Lisa Murkowski surgir agora a concordar com a acusação do general Mattis – a de que Trump divide o país, talvez a mais dura que se pode fazer a um Presidente –, indica que há cada vez mais espaço no partido para que os senadores da linha moderada sejam mais directos nas suas críticas. Pelo menos os senadores como Lisa Murkowski, que está no Senado desde 2002 e só volta a ter o cargo em risco nas eleições de 2022 – escapando ao dilema de muitos dos seus colegas que vão a votos já em Novembro, e que têm mais cuidado para não hostilizarem o Presidente norte-americano.

O actual secretário da Defesa, Mark Esper, já tinha enfrentado Donald Trump na quarta-feira, ao opor-se à ameaça do Presidente norte-americano de enviar o Exército para lidar com os protestos anti-racismo e contra a violência policial.

Esper tinha sido criticado por ter acompanhado Trump no seu passeio da Casa Branca até à igreja de St. John, na segunda-feira, para posar com um exemplar da Bíblia. Depois dessas críticas, o secretário da Defesa disse que não sabia que o objectivo de Trump era ser filmado e fotografado em frente à igreja, e a sua oposição ao envio do Exército foi vista como uma resposta ao Presidente.

"Nova fase” na luta anti-racismo

Longe dos cálculos políticos em Washington, onde os protestos também chegaram na semana passada, os familiares e os amigos de George Floyd prestaram esta quinta-feira, em Mineápolis, uma primeira homenagem pública ao afro-americano morto por um polícia branco no dia 25 de Maio.

Em frente à capela da Universidade North Central, em Mineápolis, centenas de pessoas de todas as idades e origens, muitas com máscaras a lembrar que o país continua a braços com uma pandemia, juntaram-se para apoiarem os mais próximos de Floyd. Lá dentro, familiares, amigos e líderes da comunidade negra recordaram a vida do homem que morreu a dizer ao polícia Derek Chauvin que não conseguia respirar.

Num dos discursos mais aplaudidos na homenagem a George Floyd, o reverendo Al Sharpton anunciou a chegada de uma nova fase na luta da comunidade afro-americana contra o racismo e a violência policial. “Quando vejo pessoas na Alemanha a manifestarem-se pelo George Floyd, sinto que estamos numa outra época, numa fase diferente”, disse Sharpton – uma fase em que a luta principal é o combate à violência policial e às injustiças do sistema judicial, depois das décadas em que a segregação ou o direito ao voto dominaram as preocupações.

A cerimónia desta quinta-feira em Mineápolis é a primeira de várias que vão decorrer até à próxima segunda-feira, uma em cada cidade com significado na vida de George Floyd.

Com início em Mineápolis, para onde Floyd se mudou há cinco anos e onde acabou por ser morto numa detenção por suspeita de comprar cigarros com uma nota falsa de 20 dólares, a série de homenagens termina na segunda-feira em Houston, no estado do Texas, onde cresceu e onde a sua mãe foi sepultada.

À chegada do cortejo fúnebre de George Floyd à capela da Universidade North Central, a imagem do chefe da polícia de Mineápolis, Medaria Arradondo, ajoelhado e de semblante carregado, ilustrou a importância e a gravidade do momento actual na sociedade norte-americana. 

A quase dois mil quilómetros dali, em Washington D.C., onde horas antes a senadora republicana Lisa Murkowski tinha admitido tirar o apoio ao Presidente Trump , os senadores do Partido Democrata seguiram o exemplo do chefe da polícia de Mineápolis e ajoelharam-se em frente ao Capitólio.

Durante oito minutos e 46 segundos, o tempo que Floyd teve o joelho de Chauvin a tirar-lhe o ar, o senador Cory Booker, de Nova Jérsia, ajoelhou-se e ficou em silêncio. “Pelo canto do olho, conseguia ler as palavras ‘Sem luta, não há progresso”, disse Booker.

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