Obra criticada por tirar vistas de capela em Lordelo do Ouro mas câmara nega impacto

Município aprovou ampliação de casa ao lado da capela de Santa Catarina, com uma cércea criticada pela associação de defesa do património NDMALO-GE. Que mantém as críticas, e pede mais atenção a outros projectos.

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Adriano Miranda

A Câmara do Porto está a ser acusada pela associação de defesa do ambiente e património de Lordelo do Ouro, a NDMALO-GE, de falta de sensibilidade com o património da capela de Santa Catarina, um edifício e miradouro para o rio, ao lado da qual vai ser ampliada uma morada, um piso acima da cota actual. O município respondeu à associação, notando que a construção existente já impede as vistas de quem circula no largo do templo fundado no século XIV.

A zona está inserida numa área que o próprio município pretende classificar como sítio de interesse municipal, num processo iniciado no início deste ano. Esta vontade de preservação do local, justificada, no texto que acompanha o edital de abertura do procedimento, também pela relação da capela com a paisagem envolvente, e pelas vistas para a desembocadura do Douro, aumentaram ainda mais a perplexidade da NDMALO-GE. A associação que já tinha tentado impedir uma reabilitação no largo, sem sucesso, critica que agora seja aprovada uma nova reconstrução, com uma cércea ainda mais alta. 

“Depois de toda a polémica que envolveu a construção do edifício contíguo, devido a ter sido permitida uma altura que entaipou a visibilidade da Capela de Santa Catarina, e mesmo assim com a garantia do Senhor Vereador do Urbanismo de que o edifício não subiria mais do que 60 centímetros do muro existente, vemos agora, com perplexidade, que os serviços e Vereador do Urbanismo, voltam a aprovar a reconstrução de um edifício, pegado ao anterior, autorizando a construção de um piso superior, que irá ultrapassar em cerca de três metros o nível do actual, tapando completamente as vistas da Capela de Santa Catarina para o lado norte/nascente”, criticam, numa carta assinada por Belmiro Cunha.

O município não se revê, de todo, nas críticas, que refutou, também por carta, que partilhou com o PÚBLICO. “Informamos que foi aprovado um projecto de arquitectura para o local, considerado pelos serviços de boa qualidade e que se insere de forma adequada no conjunto urbano envolvente, não pondo em causa qualquer sistema de vistas relativamente ao Largo de Santa Catarina para o lado norte/nascente que, aliás, já se encontravam ocultadas pelas preexistências”, escreveu a autarquia. 

A câmara do Porto critica o teor das críticas e a queixa de “falta de sensibilidade”, nesta obra como na anterior. E assegura que “contrariamente” ao que refere a NDMALO-GE, “esta intervenção, que salvaguarda a escala do lugar, que atenta à relação com as preexistências, com o espaço público e com a evolução da sua estrutura urbana, bem como que conserva os elementos arquitectónicos e construtivos que se revelam de interesse, constitui uma intervenção arquitectónica de qualidade e que contribui para a requalificação urbanística desta área.”  

Contacto pelo PÚBLICO, Belmiro Cunha mantém as críticas, e pede atenção ao que ainda resta de casario degradado naquela zona da cidade. “No nosso parecer sobre a classificação desta zona/sítio, chamávamos já a atenção para o cuidado a ter na análise dos muitos licenciamentos, que estarão já a decorrer e outros que se seguirão, no sentido de não permitir a descaracterização urbanística deste local, que pelo seu relevo mereceu, por parte da Câmara, o interesse da sua classificação”, explica, criticando também a Direcção Regional de Cultura do Norte, entidade à qual exige uma “fiscalização preventiva”.

Este organismo do ministério da Cultura foi chamado a intervir durante o processo de licenciamento desta obra que, por esta inserida numa zona do PDM classificada como sensível, foi sujeita a sondagens arqueológicas prévias. No parecer emitido, favorável à pretensão do promotor, a DCRN explica que fez três das quatro sondagens previstas (a última decorrerá ao longo da empreitada) e admite ter encontrado alguns materiais dispersos e fora de contexto, vestígios de ocupação recente e mais antiga - idade do Ferro/romanização - que não implicam, contudo qualquer alteração ao projecto. 

 
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