Revelada a maior e mais antiga estrutura monumental da civilização maia

Tecnologia óptica de detecção remota ajudou a desvendar um imponente centro cerimonial da civilização maia no México.

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Imagem a três dimensões de Aguada Fénix obtida através da Lidar Takeshi Inomata
Vista aérea de Aguada Fénix
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Vista aérea de Aguada Fénix Takeshi Inomata

À vista desarmada era praticamente impossível comprovar a sua dimensão, mas através de tecnologia a feixes de laser que perscrutou uma área florestal em Tabasco (México) conseguiu-se detectar a imponente Aguada Fénix. Num artigo publicado na última edição da revista científica Nature, uma equipa internacional de cientistas descreve este sítio e sugere que é a estrutura monumental mais antiga da civilização maia, tendo sido construída por volta de 1000 a.C. Também consideram que esta será a maior construção em toda a história pré-hispânica na área da civilização maia.

Para descobrir Aguada Fénix, recorreu-se à tecnologia óptica de detecção remota chamada Lidar – abreviatura de Light Detection And Ranging (Detecção de Luz e Variação, em português) –, que usa feixes de laser para mapear a cobertura e a superfície do solo a três dimensões a partir de um avião. Consegue-se assim obter as formas de elementos arqueológicos. Desta vez, esta tecnologia foi usada em floresta de Tabasco, perto da fronteira com a Guatemala.

O trabalho nesta área começou em 2017 e logo se detectou o extremo sul de Aguada Fénix. Contudo, só em 2019 se usou a tecnologia Lidar em toda a área que cobre essa construção. O sítio mede 1413 metros de norte a sul e 399 metros de leste a oeste. A altura das construções varia entre os cerca de nove metros e os 15. Ao todo, identificara-se nove passadiços.

Depois de se usar a Lidar, a equipa fez ainda escavações no sítio e utilizou a datação por radiocarbono para analisar 69 amostras de carvão e determinar a idade dessa estrutura. Estima-se que Aguada Fénix tenha sido construída entre 1000 e 800 a.C. Takeshi Inomata (da Faculdade de Antropologia na Universidade de Arizona, nos Estados Unidos, e um dos autores do trabalho) considera mesmo que a construção foi erguida entre 1050 a.C. e 1000 a.C.

Os valores da dimensão de Aguada Fénix fazem desta construção a maior em toda a história pré-hispânica da região, de acordo com a equipa. Também se sugere que seja a mais antiga estrutura monumental feita pela civilização maia. Até agora, esse título pertencia ao sítio arqueológico de Seibal, na Guatemala, construído em 950 a.C.

Pensa-se que seria um centro cerimonial. “[Era] um lugar de encontro, possivelmente havia procissões e outros rituais que podemos apenas imaginar”, disse Takeshi Inomata ao site da National Geographic.

Ausência de uma poderosa elite

A equipa destaca que, ao contrário de outros sítios arqueológicos aproximadamente do mesmo período, Aguada Fénix não apresenta indicadores claros de uma marcada desigualdade social no sítio, como esculturas de indivíduos de elevado estatuto. Como tal, os investigadores concluem que em sítios como Aguada Fénix deve ter existido trabalho comunitário na sua construção e sugerem que esse tipo de trabalho foi importante no desenvolvimento inicial da civilização maia.

“Aguada Fénix mostra que grandes construções foram feitas na ausência de uma poderosa elite”, refere Takeshi Inomata. O investigador acrescenta que deveriam, provavelmente, existir alguns líderes que tiveram um papel central no planeamento e na organização da construção dessa estrutura, mas que muitas pessoas deveriam ter sido voluntárias. “Isto mostra-nos o potencial da colaboração em que não é mesmo necessário um governo centralizado.”

Tradicionalmente, os arqueólogos também julgavam que a civilização maia se tinha desenvolvido de forma gradual. Pensava-se que pequenas povoações tinham surgido entre 1000 a.C. e 350 a.C. e descobertas como a de Aguada Fénix desafiam essa ideia.

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Imagem a três dimensões de Aguada Fénix obtida através da Lidar Takeshi Inomata

A equipa de Takeshi Inomata continuará a trabalhar em Aguada Fénix e a usar a Lidar para analisar a área. O seu grande objectivo é adquirir mais informação dos sítios que circundam essa área, nomeadamente de áreas residenciais, e perceber as interacções entre esses vários locais. “Já temos informação considerável sobre a construção cerimonial, mas queremos ver como as pessoas viviam durante esse período e que tipo de variações no estilo de vida havia nessa altura”, conta o investigador.

Num comentário a este estudo também na revista Nature, Patricia A. McAnany, investigadora do Departamento de Antropologia da Universidade de Carolina do Norte (nos Estados Unidos), destaca que a Lidar está a mudar o estudo da arqueologia da civilização maia no México e na América Central. Ainda em 2018 se desvendaram mais de 60 mil ruínas maias através desta tecnologia.

A investigadora considera que ainda há muitas questões em aberto, mas que não restam dúvidas de que a Lidar continuará a transformar a arqueologia em áreas com floresta. “O facto de a investigação de Inomata e dos colegas ter durado três anos, em vez de três décadas, também demonstra o instrumento poderoso que é a Lidar e como está a facilitar a rápida detecção e a investigação do passado ao oferecer uma forma de o espiar através dos véus da cobertura florestal”, escreveu.