Morreu Maria Alice Vergueiro, a actriz que nos deu o Tapa na Pantera

Aos 85 anos, a actriz estava internada nos cuidados intensivos de um hospital de São Paulo, na sequência de uma pneumonia. Com uma carreira de quase seis décadas dedicada ao cinema, teatro e tv, foi um curto monólogo humorístico no YouTube que lhe granjeou a fama dentro e fora de portas.

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Foto
Maria Alice Vergueiro (1935-2020), em Tapa na Pantera, vídeo de 2015 DR

Corria o ano de 2006 e o YouTube ainda tinha apenas um aninho de existência, quando surgiu o relato de uma mulher madura (tinha, na época, 71 anos) a dissertar sobre os benefícios da maconha (cannabis) — “eu fumo há 30 anos, todos os dias (todos os dias, não pulo nenhum), e não estou viciada” — e os malefícios do “papelzinho”.

Depressa se tornou viral (só o vídeo original, fora as versões copiadas e partilhadas nas várias redes, tem mais de oito milhões de visualizações) e correu mundo, concedendo à actriz Maria Alice Vergueiro uma popularidade que até aí nunca tinha tido. Mesmo que tivesse brilhado no papel de Lucrécia na telenovela dos anos de 1980 Sassaricando.

Passaram-se 14 anos e o vídeo nunca parou de ser partilhado — por vezes até com a ideia de que se tratava de uma cena da vida real (apesar de, logo no arranque, se avisar: “esta é uma obra de ficção”). E, hoje, voltou a ser motivo de conversa com a notícia da morte da actriz.

Segundo amigos próximos, citados pelo site Extra, Maria Alice Vergueiro estava internada nos cuidados intensivos do Hospital das Clínicas, em São Paulo, desde a última sexta-feira, dia 29 de Abril, por causa de uma pneumonia por aspiração e com insuficiência respiratória. No entanto, apesar de os sintomas estarem relacionados com a covid-19, não há indicação de que Vergueiro estivesse infectada com o coronavírus SARS-CoV-2.

O adeus à “velha dama indigna”

Chamar Maria Alice Vergueiro de “velha dama indigna” (ou “dama underground”), como era conhecida no meio teatral da cidade de São Paulo, era para a actriz uma espécie de homenagem ao facto de sempre se ter destacado por um constante testar de limites e fronteiras, captando a essência do que era ser irreverente em palco.

Nascida, em 1935, na cidade que a viu brilhar e desvanecer, Maria Alice Vergueiro estreou-se no teatro aos 27 anos, em A Mandrágora, de Augusto Boal, tendo passado por várias companhias e até fundado o Teatro do Ornitorrinco — com Luiz Roberto Galízia e Cacá Rosset — ou o irreverente Grupo Ornitorrinco​. Ao longo do seu percurso trabalhou com alguns dos gigantes do teatro brasileiro e contracenou com actores de renome. Até quando aceitou integrar o elenco da sua primeira telenovela, em 1987, altura em que trabalhar em televisão não era tão bem visto como hoje. Em Sassaricando, trama criada por Sílvio de Abreu, era Lucrécia e contracenava com nomes como Paulo Autran, Tônia Carrero e Eva Wilma.

Mais recentemente, em 2015, e já depois do mega-sucesso do Tapa na Pantera, encenou o seu próprio velório em Why The Horse?, ao longo de duas temporadas e mais de cem vezes. Terá dito na época que queria morrer em palco, revela o jornal O Estadão. Não aconteceu. O que aconteceu foi, mais uma vez, ter ultrapassado os limites que lhe atribuíam (estava por esta altura já com Parkinson avançado e numa cadeira de rodas), uma capacidade que acabou por ser retratada no documentário Górgona, de Fábio Furtado e Pedro Jezler, que estreou em 2018 e que se baseava em cenas dos bastidores da peça As Três Velhas, de Alejandro Jodorowsky, captadas ao longo dos cinco anos em que esteve em cena.

Apesar de uma carreira não só longa como distinta, os prémios só chegaram em 2016, aos 81 anos, com o seu papel na curta-metragem Rosinha, de Gui Campos: melhor actriz no Festival de Cinema de Brasília e Prémio Especial do Júri no conceituado Festival de Gramado. 

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