Associação de adeptos e os jogos sem público: “Um treino pago, uma ilusão”

Martha Gens, presidente da APDA, preferia que o campeonato tivesse sido cancelado em Março, para regressar mais saudável em 2020-21. “Temos soluções, mas não enchem os bolsos a ninguém”, lamenta.

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LUSA/MANUEL FERNANDO ARAUJO

O regresso do futebol em Portugal - um exclusivo da I Liga - não inclui adeptos, uma medida que convocou consensos, mas que já começa a gerar pressões no sentido de vir a ser progressivamente revertida. Sem que se tenha chegado a acordo com os detentores dos direitos televisivos para transmitir os encontros (ou alguns deles) em canal aberto, certo é que muitos dos tradicionais espectadores vão mesmo ficar fora de jogo.

A posição da Associação Portuguesa de Defesa do Adepto (APDA), organismo sem fins lucrativos criado em 2016, assumida no encontro de Abril com a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), é bastante simples: “Pugnar pela existência de uma participação activa dos adeptos na vida das modalidades desportivas, das quais são o substrato humano.”

A presidente da APDA, a advogada Martha Gens, recorda que desde o início do estado de emergência, declarado em meados de Março, defende que as competições desportivas deveriam ter sido canceladas. Algo que, em certa medida, se verificou em várias frentes, exceptuando a I Liga e a Taça de Portugal.

Um jogo de futebol sem público deixa de fazer sentido para passar a ser um treino pago. É uma ilusão, uma falsa noção da realidade. Os adeptos já perderam o interesse. Era preferível ter cancelado o campeonato para depois podermos ter uma retoma saudável”, sustenta Martha Gens, defendendo que “os adeptos podem viver sem futebol”, enquanto o inverso não é possível.

De resto, a líder da APDA não duvida de que as decisões “políticas e institucionais” resultaram de uma extrema dependência financeira, com os clubes subjugados aos operadores televisivos - um estado revelador de gestões desajustadas ao longo dos anos.

“Este momento poderia ter sido fundamental para uma reflexão profunda do actual modelo. Os clubes vivem muito acima das possibilidades e estão reféns. Quando vemos praticamente todos os sectores da economia a ajustarem-se, pergunto o que de tão transcendente há no futebol para não poder parar”, questiona.

“Os adeptos já perderam praticamente tudo: quotizações e espectáculo. Uma medida boa em termos de responsabilidade social, para evitar concentrações em locais públicos, seria a transmissão em canal aberto. Mas há interesses e a proposta que apresentámos na Liga não vingou. Temos soluções, mas não enchem os bolsos a ninguém. O nosso papel é de aconselhamento e apelo à responsabilidade. Mas não é fácil quando se fala em 25% da capacidade, sabendo que reduzir a lotação em estádios como o do Tondela não é propriamente a mesma coisa que limitar a entrada nos estádios dos clubes com maiores assistências. É preciso ver caso a caso para as pessoas não terem de subir aos telhados para ver futebol.”