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“Morrem em vão”: morte de médico do hospital de Wuhan com covid-19 provoca revolta nas redes sociais

“De Li Wenliang a Hu Weigfeng, o pessoal médico do Hospital Central de Wuhan perdeu mais do que todos durante este surto. Eles foram mortos pelos responsáveis hospitalares”, escreveu um utilizador do Wiebo, onde está a decorrer uma homenagem virtual a Hu Weigfeng, urologista no hospital central de Wuhan, onde surgiram os primeiros relatos do vírus, que morreu na terça-feira.

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Hu Weifeng, médico urologista no hospital central de Wuhan, epicentro do surto de covid-19, morreu na passada terça-feira, depois de quatro meses infectado com o SARS-CoV-2. Trabalhava no mesmo hospital que o médico que alertou pela primeira vez para o novo vírus — o oftalmologista Li Wenliang, que morreu a 6 de Fevereiro.

Hu foi diagnosticado com o vírus em Janeiro, durante as primeiras fases do surto na China, e foi transferido entre vários hospitais durante o tratamento. Depois de uma ligeira melhoria, voltou a piorar em Abril, quando sofreu de uma hemorragia cerebral. Esteve em coma antes de morrer, de acordo com o The Guardian.

O médico e um colega, o cardiologista Yi Fan, ficaram conhecidos entre a população chinesa em Abril, quando os meios de comunicação nacionais publicaram uma peça sobre a sua “dura batalha contra o vírus”. Nas redes sociais, o que mais chocou foi a alteração na pigmentação da pele dos seus rostos, que os meios de comunicação atribuíram ao “funcionamento anormal do fígado”, escreve a BBC

A sua morte motivou uma onda de manifestações nas redes sociais – como, aliás, já tinha acontecido aquando da morte de Li Wenliang. Na rede social Weibo (o equivalente chinês ao Twitter), nasceu uma hashtag em memória de Hu Weifeng (#MédicoDoHospitalCentralDeWuhanHuWeifengMorreu) que, nesta quarta-feira, já contava com mais de 400 milhões de visualizações e mais de 46.000 mil comentários.

“De Li Wenliang a Hu Weifeng, o pessoal médico do Hospital Central de Wuhan perdeu mais do que todos durante este surto. Eles foram mortos pelos responsáveis hospitalares”, escreveu um utilizador.

A maioria das críticas são dirigidas à direcção hospitalar, acusada de abafar os primeiros relatos deste surto e de não proteger de forma eficiente os seus profissionais. Outra médica, Ai Fen, relatou que as autoridades de saúde impediram o pessoal médico de usar equipamento de protecção individual para não causar pânico. Ai foi acusada de “ameaçar a estabilidade” quando tentou alertar outros sobre o vírus.

Muitos utilizadores do Weibo questionaram-se porque é que os responsáveis hospitalares não foram ainda punidos – especialmente Cai Li, responsável pelo comité do partido comunista no hospital. “Cai Li nem foi posto sob investigação. Estes médicos e enfermeiros vão morrer em vão”, escreveu um deles.

Lançam-se também dúvidas sobre o número de doentes ainda internados a receber tratamento para as mazelas causadas pela covid-19. “Os doentes de Wuhan não tinham já recebido alta há muito tempo?”, perguntou um utilizador do Weibo, que recebeu mais de 400 gostos. De acordo com a Comissão Nacional e Saúde, os últimos doentes internados em Wuhan tiveram alta a 27 de Abril. 

Cinco médicos morreram no hospital de Wuhan

Em Janeiro, ainda antes de as autoridades confirmarem que o vírus se transmitia entre humanos, Hu Weifeng pediu a outro colega do mesmo hospital que evitasse ajuntamentos e deixasse de praticar desporto em grupo. “Hu não me disse a razão – já sabíamos que havia um surto, mas não sabíamos da gravidade”, recorda Duan Xin, citado pelo South China Morning Post.

A homenagem a Hu Weifeng na internet foi feita com emojis de velas e agradecimentos ao médico pelo seu trabalho. “Estas pessoas não puderam lutar contra o sistema autoritário e estão a ser sacrificados um a um”, lê-se numa das mensagens. Já morreram cinco médicos do hospital onde foi identificada a doença pela primeira vez.

O primeiro foi Li Wenliang, o médico que alertou um grupo restrito de outros médicos através da aplicação WeChat no dia 30 de Dezembro para uma nova “pneumonia atípica” que tinha identificado no seu hospital, e tornou-se na cara mais conhecida do alerta ao novo coronavírus. O médico chegou a ser investigado pela polícia chinesa por “espalhar rumores” e foi obrigado a assinar uma carta em que se comprometia a parar com as suas “actividades ilegais” – tal como muitos dos seus colegas.

Ficou doente a 10 de Janeiro, provavelmente infectado por uma doente de 82 anos com glaucoma. “A doente não tinha febre e por isso não usei nenhuma protecção extra quando cuidei dela”, referiu o médico numa publicação do seu blogue. Morreu a 6 de Fevereiro.

Foi o primeiro médico a morrer da doença para a qual alertou naquele hospital, mas não foi o único. Outros três colegas também morreram, quase todos no início de Março: Mei Zhongming, oftalmologista de 57 anos, Jiang Xueqing, de 55 anos, do departamento de cirurgia ao peito e tiróide e Zhu Heping, 67 anos e médico reformado que voltou ao trabalho devido ao surto de covid-19.

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