Bruxelas alerta: este vai ser um Verão difícil em termos de fogos florestais

Projecções apontam para uma época de incêndios acima da média dos últimos dez a 12 anos, revelou o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarcic. Áreas em risco estão no sul e no norte da Europa. Em Portugal, área ardida este ano está em linha com a média da última década.

De 1 de Janeiro a 2 de Junho arderam na Europa 147.949 hectares de floresta
Foto
De 1 de Janeiro a 2 de Junho arderam na Europa 147.949 hectares de floresta Adriano Miranda

A Comissão Europeia está a antecipar um Verão difícil na Europa em termos de fogos florestais. As projecções de temperaturas muito acima da média em Junho, Julho, Agosto e Setembro, associadas à forte quebra dos níveis de precipitação registada nos primeiros seis meses do ano, levaram Bruxelas a fazer soar o alarme sobre o risco acrescido de incêndios. “As previsões que temos apontam para uma época de incêndios florestais acima da média dos últimos dez a 12 anos, tanto no que diz respeito ao número de incêndios como à extensão da área ardida”, disse o comissário europeu para a Gestão de Crises, Janez Lenarcic, esta terça-feira.

O alerta do comissário dirigia-se tanto às populações dos países do Mediterrâneo e do sul da Europa, fustigadas todos os anos por fogos florestais, como também às autoridades de regiões que estão menos expostas ao impacto das altas temperaturas no Verão. “As áreas afectadas não estão só no sul da Europa, mas também no centro e norte”, afirmou Lenarcic, que deixou uma mensagem de urgência: todos os Estados-membros devem estar preparados para enfrentar um período de fogos particularmente difícil.

Segundo os dados do Sistema Europeu de Informação de Fogos Florestais (EFFIS, na sigla em inglês), desde o dia 1 de Janeiro até hoje, 2 de Junho, já arderam na Europa 147.949 hectares de floresta, o que se compara com uma média de 40.485 durante o mesmo período entre 2008 e 2019. Em vez da média de cerca de 220 incêndios da década passada, no primeiro semestre de 2020 já se contam 944 fogos florestais (para figurar nas estatísticas, os incêndios têm de ser superiores a 30 hectares).

Uma subida que se deve aos incêndios que se registaram no início de 2020 em territórios mais ou menos inesperados, como a Áustria, a França, a Croácia, os Países Baixos, a Polónia e a Roménia — onde este ano já arderam mais de 78 mil hectares em 358 incêndios, quando a média da última década para este período era 35 incêndios e cerca de dez mil hectares queimados.

No caso de Portugal, a área ardida de Janeiro até agora ainda está em linha com a média da última década — aliás, com 4021 hectares ardidos, está até ligeiramente abaixo da média de 5829 registada entre 2008 e 2019. As estatísticas revelam que os incêndios começam a “atacar” em força a floresta portuguesa em meados de Julho, e mantêm-se perigosos por um período superior a três meses, até ao final de Outubro.

É precisamente esse o período para o qual estão previstas as condições mais adversas, em termos de temperatura e pluviosidade. Por exemplo, as projecções para o território nacional para o mês corrente apontam para temperaturas mais de um grau acima da média e para pluviosidade entre um a dois milímetros abaixo da média. No entanto, em Abril o país “beneficiou” de condições favoráveis, com níveis de precipitação, humidade relativa e retenção de água no solo ligeiramente superiores à média.

Nos últimos dois meses, os valores registados pelo sistema europeu Copérnico fazem antever problemas em regiões mais ou menos imunes ao risco de incêndio. Por exemplo, na Bélgica, este foi o Maio mais foi seco desde o século XIX, com um impacto muito negativo nas colheitas. A Suíça registou o terceiro Abril mais quente desde 1900, com as temperaturas três graus celsius mais quentes do que a média de 1991 a 2020. 

Segundo Janez Lenarcic, a Comissão está em contacto com todas as autoridades nacionais relevantes na antevisão da época de incêndios florestais. O comissário garantiu que o mecanismo europeu de Protecção Civil, RescEU, dispõe dos meios necessários para responder a eventuais pedidos de apoio dos Estados membros no combate aos fogos, incluindo “uma variedade de aviões e helicópteros que vão estar disponíveis em caso de necessidade em meia dúzia de países”, que não especificou.

As declarações do responsável do executivo comunitário pela Gestão de Crises foram proferidas numa conferência de imprensa destinada a explicar a proposta para o reforço do orçamento deste mecanismo europeu, que foi criado para responder a catástrofes naturais e prestar ajuda em situações de emergência — e foi agora mobilizado no quadro da crise sanitária provocada pelo novo coronavírus. A Comissão pretende o acordo dos 27 para aumentar até 1100 milhões o envelope financeiro do RescEU dentro do próximo quadro plurianual, aos quais quer somar uma parcela adicional e extraordinária de 2000 milhões de euros no âmbito do fundo de recuperação “Próxima Geração UE”.