Amy Cooper, George Floyd e Mineápolis: o que tem Trevor Noah a dizer sobre o que se passa nos EUA

No The Daily Social Distancing Show de sexta-feira, o apresentador e comediante fez um discurso sobre o efeito dominó que deu origem à actual situação de protestos.

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Protestos em Mineápolis Reuters/LUCAS JACKSON

Os protestos que exigem justiça para a morte de George Floyd e outras vítimas do abuso de poder por parte da polícia, geraram reacções por todo o mundo. Uma das vozes mais recentes foi a de Trevor Noah, comediante e apresentador do The Daily Show. Durante a versão caseira do programa – The Daily Social Distancing Show – na sexta-feira, Trevor Noah partilhou a sua opinião sobre racismo, injustiça social e como existe um contrato social que deve regular a sociedade.

O comediante começa por falar do efeito dominó de acontecimentos ligados ao racismo que tiveram lugar nos EUA na última semana: Amy Cooper, George Floyd e os protestos dos cidadãos de Mineápolis​.

“Penso que Amy Cooper teve, para muitas pessoas, um efeito catalisador”, começa por dizer Noah no programa online que, no YouTube, tem mais de 6,3 milhões de visualizações. “O que vimos foi um exemplo muito poderoso e explícito de uma percepção de racismo numa forma estruturada”, define, fazendo referência a uma mulher, Amy Cooper, que há uma semana chamou a polícia depois de Christian Cooper (que não é familiar da primeira) ter-lhe pedido para pôr a trela no cão por estar numa zona de observação de pássaros em Central Park, Nova Iorque.

Enquanto o homem, negro, falava com a mulher, branca, esteve sempre a filmar a interacção, o que a enfureceu. Amy Cooper ameaçou que ligaria para as autoridades porque estava a ser ameaçada por um negro, acabando por cumprir. Ao telefone, a mulher alegou estar a ser vítima de assédio por um afro-americano, enquanto Christian Cooper continuou a gravar, afastado, montado em cima da sua bicicleta, testemunhando assim que nada do que a mulher dizia correspondia à verdade. Esta situação “mostra a percepção que ela tem da polícia. Mostra a percepção que ela tem da relação entre ela, sendo uma mulher branca, e a polícia. Mostra a percepção que ela tem de uma relação de um homem negro com a polícia e a relação que a polícia tem com ele. Foi poderoso”, interpreta Noah.

A irmã de Christian Cooper incentivou-o a publicar o vídeo no Facebook e aquele tornou-se viral, acabando por Amy Cooper sentir a necessidade de vir pedir, publicamente, desculpas pelo sucedido. A mulher argumentou que não era racista e que a sua vida acabou por ficar destruída, disse em entrevista à CNN, depois de ter sido despedida.

Tudo isto aconteceu no mesmo dia em que George Floyd foi morto e esta é, no entender de Trevor Noah, a peça seguinte do dominó. “Eu não sei o que é que foi mais doloroso ver no vídeo: foi aquele homem perder a vida à frente dos nossos olhos? Foi ver alguém ser assassinado por alguém cujo trabalho é proteger e servir? Ou por ele parecer tão calmo enquanto o fazia?” questiona. “Havia um homem negro no chão, de algemas, e tu podes tirar-lhe a vida, então tiras. Quase sabendo que não haverá consequências”, continua, sobre o alegado medo que os agentes dizem sentir nestes momentos, mas que cada vez mais se percebe que esse é inexistente, continua.

“Naquele momento, foi um raio de sol ver a quantidade de pessoas que condenaram de imediato o que viram”, declara Noah. Os quatro polícias envolvidos na morte de Floyd foram despedidos e o polícia que tinha o joelho no pescoço da vítima foi preso e acusado de homicídio.

Em resposta à morte de Floyd, os habitantes de Mineápolis​ iniciaram protestos contra a injustiça racial. Alguns tornaram-se violentos com incêndios e lojas saqueadas. “Vi tantas pessoas, online, a dizer: ‘Estes motins são repugnantes. Não é assim que uma sociedade deve ser. Tu não podes saquear e não podes incendiar. Não foi assim que a nossa sociedade foi construída.’ E isso faz-me reflectir: ‘Então o que é a sociedade? Fundamentalmente, e resumindo, a sociedade é um contrato. É um contrato que assinamos entre nós, enquanto seres humanos. Assinamos um contrato uns com os outros, enquanto pessoas, quer seja verbal ou escrito, onde dizemos, que naquele grupo, concordamos com regras comuns, ideais comuns, práticas comuns que nos definem enquanto grupo”, responde.

Noah considera que há gente que não tem motivos para continuar a honrar esse contrato, gente que não tem nada ou que ficou sem nada devido à pandemia da covid-19 que obrigou ao confinamento, despedimentos e mortes devido a doença — os EUA já ultrapassaram as cem mil vítimas mortais — ; e cuja morte de Floyd foi a gota de água, o que fez com que muitos decidissem fazer letra morta desse contrato social.

Acrescenta ainda a necessidade de ter bons exemplos e das responsabilidades serem assumidas pelas autoridades, “porque são elas que estão a definir o tom para tudo o que se faz na sociedade”. “Se o exemplo que os responsáveis por aplicar a lei estão a passar é o de não a cumprir, por que é que os cidadãos dessa sociedade devem cumprir?”, continua, considerando ainda que não há uma “maneira certa de protestar”.

“Aqui está algo que muita gente não percebe: George Floyd morreu e isso é parte do motivo pelo qual esta história se tornou tão grande – porque ele morreu. Mas quantos George Floyd há que não morreram? Quantos homens estão com joelhos no pescoço?”, enfatiza. No final do vídeo, Trevor Noah deixa um pergunta: “Agora, pensa. Imagina que eras tu que vias o contrato a ser destruído todos os dias. Pergunta a ti mesmo como te irias sentir?”

Texto editado por Bárbara Wong

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