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Riscos e pandemias

Em termos de risco de morte, esta pandemia não é qualitativamente muito diferente das gripes que assolaram o mundo em 1957 e em 1968, e que agora são comuns e endémicas. E, no entanto, as consequências das diferentes pandemias são profundamente diferentes, tanto em termos de percepção como de efeitos reais.

Existiram três grandes pandemias no século XX, todas elas causadas por variantes do vírus da gripe. A primeira ficou conhecida como a Gripe Espanhola, embora a sua origem última não seja, de facto, conhecida. Na Primavera de 1918, um novo vírus da gripe, posteriormente denominado H1N1, infectou centenas de milhões de pessoas (talvez um terço da população mundial da altura) e matou dezenas de milhões. As estimativas apontam para um número de mortes entre 17 milhões e 50 milhões, mas algumas chegam mesmo aos 100 milhões, quando a população mundial era de apenas 1800 milhões, menos de um quarto da actual.

No Inverno de 1957, quando a população mundial era cerca de um terço da actual, um novo vírus da gripe, o H2N2, apareceu na Ásia, causando a pandemia que ficou conhecida como a Gripe Asiática. Esta gripe matou um número de pessoas estimado entre um e quatro milhões, durante o ano e meio em que se propagou de forma descontrolada pela população.

No Verão de 1968, um novo vírus da gripe, o H3N2, que evoluiu a partir do H2N2, apareceu em Hong Kong e propagou-se rapidamente pelo resto do mundo. No Outono de 1968, o vírus tinha já chegado à Europa e aos Estados Unidos e, no Inverno de 1969, à América do Sul. A Gripe de Hong Kong, nome pela qual ficou conhecida, terá morto mais de um milhão de pessoas, numa população que era menos de metade da actual, entre o Verão de 1968 e o Inverno de 1969-70. Cerca de metade das mortes foram pessoas com menos de 65 anos.

Naturalmente, as estimativas para o número de mortes causadas por cada uma destas pandemias sofrem de consideráveis incertezas, tal como acontece com a pandemia que enfrentamos. Em 1968 (e nas pandemias anteriores) não existiam testes genéticos, e apenas os critérios clínicos foram usados em grande escala para determinar se uma morte se deveu ou não ao vírus. No momento em que escrevo este texto, a covid-19 matou um número de pessoas que se aproxima dos 400.000, valor que, com o desenrolar da pandemia, poderá chegar próximo ou até mesmo ultrapassar o milhão. A possibilidade de a pandemia se descontrolar e vir a matar muitos milhões de pessoas, ou mesmo dezenas de milhões, parece relativamente remota, numa altura em que cada vez temos mais conhecimento do vírus e das suas consequências

É, assim, relativamente seguro afirmar que, em termos de risco de morte, esta pandemia não é qualitativamente muito diferente das gripes que assolaram o mundo em 1957 e em 1968, e que agora são comuns e endémicas. E, no entanto, as consequências das diferentes pandemias são profundamente diferentes, tanto em termos de percepção como de efeitos reais.

Em termos de percepção, as pandemias de 1957-58 e 1968-69 deixaram relativamente poucas marcas na sociedade e na história. A de 1968, a mais recente, quase não consta nos textos históricos dedicados à época, que se focam na guerra do Vietname, na chegada do Homem à Lua, na invasão da Checoslováquia, nos movimentos estudantis e na contracultura hippie. De facto, no Verão de 1969, entre duas vagas da pandemia nos Estados Unidos, teve lugar o festival Woodstock, que reuniu quase meio milhão de pessoas, em condições de péssima higiene e nenhum distanciamento social. Uma fracção significativa dos portugueses ainda vivos já tinha nascido, quando a pandemia ocorreu, e cerca de um quinto já tinha, em 1968-69, idade suficiente para se poder lembrar hoje do evento. E, no entanto, poucas pessoas que hoje têm mais de 65 anos têm memórias significativas da grande pandemia de 1968-69.

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Covid-19: alguma vez esqueceremos esta pandemia? REUTERS/Susana Vera

Em termos de efeitos reais, na sociedade e na economia, a pandemia de 1968-69 também não teve grande impacto. Tal como hoje, foram aconselhadas medidas de distanciamento social e, nos países mais afectados, a pandemia foi amplamente noticiada. A Alemanha foi seriamente afectada e, em Berlim, túneis de metro foram usados para guardar temporariamente os cadáveres dos falecidos. Em França, uma fracção significativa da população ficou em casa, doente. Mas não foram tomadas medidas de confinamento, nem outras medidas que impedissem o funcionamento normal da economia. Talvez por essa razão, poucas pessoas têm memória desta pandemia.

Pelo contrário, a pandemia de 2020 ficará seguramente registada nos livros de história como um evento de consequências sociais e económicas sem precedentes no último século. As severas medidas de confinamento adoptadas por quase todos os países causaram um impacto negativo imediato, na economia, superior ao da grande depressão e é natural que esse impacto venha a ter consequências duradouras.

As razões pelas quais as pandemias de 1968 e 2020 (para comparar apenas as duas mais recentes) levaram a reacções tão diferentes das sociedades e dos governos são intrigantes. Por um lado, o risco objectivo da pandemia de covid-19 é relativamente baixo, seguramente comparável ao de pandemias anteriores. Porém, esta pandemia ocorreu num mundo profundamente diferente. Não é fácil identificar, com absoluta certeza, as principais diferenças entre o mundo de 1968 e o mundo de 2020, que conduziram a reacções tão diversas. Porém, atrevo-me a sugerir alguns dos factores que mais poderão influenciar estas profundas diferenças de percepção e actuação.

A primeira das diferenças tem a ver com os meios de comunicação e as redes sociais, que transportam, em segundos, informação para o outro lado do mundo, focando-se nas componentes mais sensacionalistas. Para além dos jornais e rádio, a utilização da televisão já era comum, em 1968, mas a cobertura dada pelos media aos eventos relacionados com a pandemia foi relativamente limitada, em total oposição ao que se passa agora, onde a pandemia ocupa praticamente todo o espaço dos media. As redes sociais, canais alternativos cada vez mais usados para propagação de notícias, também ecoam e amplificam o tema da pandemia, em detrimento de outros.

A segunda diferença prende-se, a meu ver, com a maior incapacidade dos governos para assumirem riscos políticos. Poucos governos (a Suécia é uma excepção, embora existam outras) estão disponíveis para assumir o risco de não tomarem medidas radicais e serem mais tarde confrontados com um grande número de mortes. Ao contrário do que aconteceu em 1968, onde a pandemia não foi significativamente usada como arma de arremesso político, qualquer actuação menos bem-sucedida por parte de um governo será, com elevada probabilidade, razão suficiente para um desaire eleitoral no futuro.

A terceira, e talvez a mais aceitável razão para a profunda diferença entre 1968 e 2020, é a muito maior aversão da sociedade actual ao risco. Comportamentos de risco que eram perfeitamente toleráveis em 1968, como fumar, conduzir alcoolizado ou simplesmente andar de automóvel sem cinto e encosto de cabeça, são agora considerados inaceitáveis. O risco de morte por acidente de trânsito, por quilómetro percorrido, é hoje uma fracção muito pequena do que era em 1968. O risco de morte acidental no trabalho, ou como consequência de muitas doenças graves, caiu também muito nestes últimos 50 anos. Assim, embora o risco absoluto da covid-19 seja comparável ao risco da Gripe de Hong Kong, o risco relativo, face a outros factores, aumentou muito. A qualidade de vida que temos criou uma grande aversão ao risco, muito maior do que há 50 anos. Isso justificará, em parte, a reacção tomada pela maior parte dos países, e a percepção de risco elevado que muitos de nós temos face à covid-19 que, objectivamente, é porém comparável ou inferior à das mais recentes pandemias.

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