Baleados e gaseados: jornalistas são atacados pela polícia nas manifestações anti-racismo nos EUA

Polícias são os autores da maioria dos ataques, mas há casos que envolvem manifestantes. Presidente Trump acusa os media de “utilizarem o seu poder para fomentar ódio e anarquia”.

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Repórter foge enquanto a polícia lança gás lacrimogéneo contra manifestantes, em Mineápolis Reuters/CARLOS BARRIA

Os jornalistas tornaram-se um alvo nas manifestações anti-racismo por causa da morte do afro-americano George Floyd, cidadão sufocado até à morte por um agente da polícia de Mineápolis, nos EUA. Há pelo menos meia centena de ataques — a maioria pela polícia, mas também por manifestantes.

Segundo a contagem feita pelo jornal The Guardian, foram reportados pelo menos 50 incidentes de violência ou a impedir o trabalho dos jornalistas que cobriram as manifestações dos últimos dias nos Estados Unidos. No entanto, as denúncias que vão surgindo nos diversos meios de comunicação social, bem como nas redes sociais, indicam que o número poderá ser superior.

Entre estes ataques a jornalistas — sobretudo repórteres de imagem —, contabilizam-se, entre outros, o ataque a Linda Tirado, fotojornalista freelancer baleada num olho na sexta-feira, em Mineápolis, ou a Nina Svanberg, correspondente do jornal sueco Expressen, atingida na perna por uma bala de borracha.

A maioria dos ataques tem sido perpetrada por polícias, mas há casos a envolver manifestantes. Uma equipa da Fox News, por exemplo, foi atacada por um grupo de manifestantes junto à Casa Branca, no sábado, que atirou objectos e insultou os jornalistas do canal de televisão conservador norte-americano. Já na última sexta-feira, uma multidão em fúria vandalizou as instalações da CNN, em Atlanta, no estado da Georgia.

“Os ataques direccionados a jornalistas, a equipas de media e organizações noticiosas que estão a cobrir as manifestações revelam uma completa desconsideração pelo seu papel crítico em documentar questões de interesse público e são uma tentativa inaceitável de intimidação”, disse ao USA Today Carlos Martínez de la Serna, director do Comité para a Protecção de Jornalistas, uma organização sem fins lucrativos com sede em Nova Iorque que promove a liberdade de imprensa. “As autoridades das cidades norte-americanas precisam de instruir a polícia a não alvejar jornalistas e a garantir que eles possam reportar os protestos em segurança, sem medo de serem feridos ou de sofrerem retaliações”, acrescentou.

Ataques e detenções em directo

A primeira detenção de uma equipa de jornalistas ocorreu na sexta-feira, em directo na CNN, quando o jornalista Omar Jimenez e a sua equipa foram detidos pela política de Mineápolis, enquanto filmavam as preparações para uma possível investida da polícia contra manifestantes.

Mas a detenção de Omar Jimenez não foi caso único. No sábado, o jornalista Chris Mathias, do Huff Post, foi detido pela polícia nova-iorquina enquanto cobria as manifestações. Esteve sob custódia das autoridades durante a noite e foi libertado no dia seguinte.

Nas redes sociais, sucedem-se as denúncias de repórteres atacados pela polícia. A polícia de Mineápolis disparou gás lacrimogéneo contra repórteres da MSNBC e de outras estações televisivas, apesar de estes estarem num parque de estacionamento afastado dos protestos. Já a equipa da CBS News foi alvejada com balas de borracha enquanto filmava na mesma cidade do estado do Minnesota.

Michael Anthony Adams, jornalista da VICE News, diz ter sido atacado pela política de Mineápolis, apesar de ter mostrado a sua carteira profissional. Segundo o relato do jornalista no Twitter, a polícia apontou as armas para o grupo de repórteres e, quando se aproximaram, mesmo depois de Adams gritar “imprensa” e mostrar o documento, foi derrubado por um polícia, que o atacou com gás pimenta.

Segundo a Associated Press, desde o início das manifestações, pelo menos oito jornalistas da agência de notícias norte-americana ficaram feridos. Já a Reuters afirma que dois dos seus jornalistas ficaram feridos, no sábado, em Mineápolis, depois de serem atingidos por balas de borracha disparadas pela polícia.

“Os ataques numerosos e direccionados de que os jornalistas que estão a cobrir os protestos têm sido alvo por parte das autoridades nas últimas duas noites são condenáveis e claras violações da Primeira Emenda”, afirmou à Reuters Bruce Brown, director executivo do Comité de Repórteres para a Liberdade de Imprensa, uma organização norte-americana sem fins lucrativos, sediada em Washington, que fornece ajuda jurídica gratuita a jornalistas.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, fez uma declaração sobre o assunto no Twitter: “Quando os jornalistas são atacados, são as sociedades que estão a ser atacadas.” 

Os ataques a jornalistas surgem numa altura em que o clima de suspeição contra os órgãos de comunicação social é cada vez maior nos Estados Unidos, em boa parte alimentada pelo Presidente. Durante o fim-de-semana, Donald Trump voltou a atacar os media, acusando-os de “utilizarem o seu poder para fomentar ódio e anarquia”.

“Ele [Trump] não é o único gatilho, mas, se parasse de atacar os jornalistas, ajudava muito”, disse Bruce Brown, director executivo do Comité de Repórteres para a Liberdade de Imprensa.